21 de setembro de 2007


Maluco beleza


Com tubos de PVC colados ao corpo com fita adesiva, um relógio digital, fios de eletricidade, usando uma peruca loira e óculos de sol e vestindo uma jaqueta feminina, o jardineiro Antônio Marcos dos Santos, 22 anos, ameaçou causar uma explosão. Ele invadiu a casa de uma de suas clientes, na Rua Manoel Bonifácio, Costeira, em Paranaguá, às 6h45 de ontem, e assustou a mulher, de 55 anos.
Marcos limpou o quintal da mulher esta semana e foi pago pelo serviço. Para tentar conseguir mais dinheiro, ele se fantasiou de mulher e foi procurar a cliente. Ao ser atendido, abriu a jaqueta e mostrou a “bomba”, exigindo dinheiro. Sem imaginar que era seu jardineiro, a mulher passou mal. Mesmo assim, conseguiu telefonar para a Polícia Militar.
O capitão Marcelo Figueiredo, do 9.º Batalhão da PM, disse que quando os policiais chegaram, cercaram o rapaz e apontaram armas. Assustado, Marcos urinou na calça, ergueu os braços e avisou que a bomba não era verdadeira. Foi lavrado termo circunstanciado por ameaça e Marcos foi liberado.

No interior do Zaire é assim, tem até homem bomba...

19 de setembro de 2007


Show da Madeleine amada em Sumpaulo ontem.

Te contar.

E ela veio pra cá, em 2005, quando eu não fazia idéia do desbunde e já tinha gastado todo o meu dinheiro pra ver Eddie na Pedreira.

Seria muito sonhar com o dia em que poderemos desmarcar compromissos profissionais, gritar em alto e bom som “as audiências que se explodam”, pegar um avião numa terça-feira, ir pra Sumpaulo assistir Madeleine e voltar no mesmo dia, sem que isso signifique ainda um rombo nos orçamentos financeiros dos próximos meses?

13 de setembro de 2007

Coisas de papai



Ele faz dessas e até esquece, deve ter ficado uns dias ali, e eu só vi hoje de manhã.

Isso que ele é um homem ocupado, vejam.

Mas o causo é que a gente foi pegar não lembro o que de uma caixa, e veio junto esse Papai Noel, que na verdade é um enfeite de árvore de Natal. Daí ficou dando bobeira por lá e foi o que bastou para a mente fértil de seu Cosme.

É a genética me dizendo que não, não há salvação.

* Pra quem não enxergar ou não entender os hieróglifos: "Onde estou?! O que aconteceu? Quem acelerou o maldito trenó? ... 'Tá tudo muito estranho... ou... será que eu cheguei muito cedo?".

12 de setembro de 2007

Edward Hooper. "Excursion into Philosophy"

"E estavam em Amsterdã. Abriu os braços. Tão oco. Leve. Poderia sair voando pelo jardim, pela cidade. Só o coração pesando - não era estranho? De onde vinha esse peso? Das lembranças? Pior do que a ausência do amor, a memória do amor."

(Lygia Fagundes Telles, em "Lua Crescente em Amsterdã")

8 de setembro de 2007

Razões & Balanços

Pois dando seqüência à série “Abandono total do blog: a justificativa”, eis que finalmente re-apareço, depois de inacreditáveis e aceleradíssimos três meses e onze dias de sumiço virtual.

A vida, como muito bem disse Merilú, está mais dura do que nunca.

Não só pela correria de sempre com a falta de dinheiro usual, mas principalmente pelo acúmulo de anos da junção desses dois ‘fatores’, que faz a pessoa quase ter um peripaque no auge de seus recém completados vinte e nove anos.

Hora de pensar se vai ser o caso de se passar o resto da vida resolvendo os problemas alheios mesmo. Ou se finalmente vai ser colocado em prática o Plano B, de fugir para a praia e viver de amor & pesca.

Não acredito que chegue a este extremo, mas uma saída alternativa é a solução única que surge, brilhante e piscante, no fim desse túnel praticamente infindo em que nós mesmos nos colocamos. Solução única, bem entendendo, caso se queira chegar saudável aos quarenta. Se isso não for preocupação, o estilo de vida atual pode prosseguir.

Mas, no meu caso, é.

E todas essas reflexões são feitas, somadas à crise da qual inocentemente achei que estava alheia – a da chegada dos inta –, sem que a pessoa tome a decisão de uma mudança radical, porque algo por demais tradicionalista e extremamente careta ainda a prende em seguir a profissão para a qual foi preparada por cinco anos de faculdade, e seis outros de experiência prática.

E não que eu não goste, veja bem, que eu não sou assim tão louca. Há coisas que eu gosto, e muito. Tirando os atendimentos pessoais, os prazos curtos e sucessivos e todo aquele trabalho político de bastidores, eu gosto da coisa toda. Mesmo. Só que tirando tudo isso, sobra uma profissão bem diferente da atual, eis o problema.

Mãs.

Chega da rabugice.

Os vinte e nove me foram muitíssimo generosos e o balanço, no final das contas, é berrantemente positivo. Graças.

Amizades verdadeiras e duradouras. Daquelas que tanta gente passa a vida toda procurando ou tentando se convencer que tem, mas que não sabe nem de longe a felicidade de realmente tê-las. Um alívio, um alento. Ar fresco para se respirar nas turbulências. Né, filhas? E filhos também. Obrigada a vocês então, do fundo do coracebo, por essa coisa toda de a gente se fazer cada vez melhor uns aos outros.

Um amor tranqüilo, sem sabor de fruta mordida, mas daqueles que dão a força que nos falta, que nos faz imaginar como é que passaria por tudo isso sem ele, e agradecer por esta sorte imensa de ter as diarices mais banais acompanhadas de perto por alguém tão afim, sabe como. E de encontrar um companheiro fiel e incansável para se passar por esta existência às vezes tão ingrata. Né, cara de boi?

E a familiagem de ouro, por assim dizer. Criam, alimentam, educam, e depois ainda mantêm as bases e não cansam de receber e entender. O tal do amor incondicional. Acho que também não são todos os que passam por aqui contando com mais esta certeza, esta segurança, não importa como e nem porquê. Então, agradecidas a vocês por primeiro e também, família buscapé.

Duzentos e vinte e cinco assuntos misturados, vinte e nove anos mais confusos e agitados do que nunca, e eis que o balanço positivo surge, pra gente parar de se lamentar por pouco ou quase nada, perto da grandeza das cousas outras.

5 de setembro de 2007

Ouquei. Abandono total do blog.

Mas há razões. Inúmeras.

Jamais trabalhei tanto em toda-minha-vida, e também passo por período de reclusão quase que total, não fossem os festejos comuns por virem, como o casamento da Anna no sábado, e chá de panela na sexta, e níver de Kerol na quinta e níver da Day no sábado e Mi mudando de cidade na próxima semana, tudo ao mesmo tempo e agora.

Aliás, parabéns e mis felicidades para as aniversariantes e para os nouvos!!

Agitadíííssimo será o feriado da pátria. Nos anteriores em que tentei ir para a praia, caíram raios e trovões, agora que o feriado necessariamente será na terrinha, o sol se abre para nós e é possível usar sandália em Curitiba.

A vida é tão irônica...

E estamos em setembro. E mais um pouco veremos anúncios de Natal.

2007 era previsivelmente o ano das agitações e assim se confirmou, que a vida nunca foi tão dura, minha gente.

Vi um filme lindo, ao menos. Há meses atrás, e me ensaiei algumas vezes pra falar dele aqui, mas...

Baseado no livro “O Véu Pintado” de W. Somerset Maugham, no cinema virou “O Despertar de Uma Paixão”, com Edward Norton e Naomi Watts.



O nome não vai pegar nunca, mas o filme é lindo, a história é linda, e é um respiro no meio do tédio cinematográfico dos últimos tempos.

É isso, então.

A idéia é voltar logo na seqüência!

7 de agosto de 2007

Prosseguindo com o monotema...

Santiago, que já chegou lá, explica-nos o processo:

"Verdade que em dias como hoje não sei se estou com frio, se estou com fome, se é só gula, carência ou sono. Carência que faz ter frio. Ou frio que faz ter fome. Gula pela carência. Frio que me faz querer...

Continuando com a crise de meia-idade, fiquei pensando que não se pode mesmo confiar em ninguém com mais de 30. Essas pessoas nem sabem se têm frio, se têm fome, se estão só carentes, com sono ou recalcadas.


A verdade, é que depois da "passagem" a gente acredita que tem de ficar mais adulto... ou mais sofisticado. Ou a gente fica com preguiça do esforço, do ímpeto e da transgressão, e acaba se conformando com tanta coisa que a gente nem acredita.

Tenho me pegado tanto analisando meus valores. Acho que estou me tornando uma pessoa pior. Acho que meus valores são discutíveis. Mas então, encontro as pessoas que estudaram comigo, as pessoas da minha idade, as pessoas mais velhas, dos mesmos círculos, e elas estão todas assentindo e reafirmando os maiores absurdos que eu pratico, mas não concordo. Elas estão reafirmando valores em que eu penso, mas não admiro. Elas se permitem indulgências, deslizes, futilidades e as elevam para categoria de qualidade.

(...)

Por isso eu digo: faça enquanto é tempo. Faça cedo. Busque logo para você os rótulos de revelação, promessa, prodígio. Tudo o que você conquistar depois não terá graça, não terá validade, será apenas sua obrigação. E cada comemoração na sua vida virá acompanhada de uma dor nas costas."

Pombas.

Rolou assim uma identificação faraônica com a descrição toda.

Abster-me-ei de comentários, que muito provavelmente só repetisse as mesmas palavras.

Mas, ...é por aí.

É muito por aí.

6 de agosto de 2007

Eu tenho 12 anos

Esses dias vi na tv a chamada de um filminho cuja história era a de uma menina de 13 anos que teve atendido o seu desejo de acordar o dia seguinte com 30 anos.

Mas ela passou a ter 30 anos e um corpo de mulher e continuou tão inábil e envergonhada como são as meninas de 13 anos.

No meu caso, eu tenho 12 anos, a situação é inversa e isso não é, propriamente, um desejo meu.

Doze porque além de doze ser mais sonoro, meus 12 anos foram o momento mais crítico da minha existência, graças desde às minhas sobrancelhas que não paravam no lugar e à minha mãe nunca ter aprendido a fazer escova no meu cabelo até o meu sublime e eterno amor colegial não correspondido, razões todas que me levavam a querer desesperadamente pular a fase crítica e acordar adulta. 30 anos era uma boa pedida.

Mas o que eu não podia contar é que em tendo quase 30 eu voltasse a ter as mesmas reações debilóides que me acometiam aos 12 anos, do tipo ter ataques de riso porque o rapazinho mais-ou-menos-interessante (que também está na faixa dos 30, se não mais) surgiu do outro lado da rua, e, pra disfarçar tamanho sem graça, fingir procurar coisas inexistentes dentro do porta-malas do carro; ou, pior, sequer conseguir olhar para o moço apontado pela amiga (que é interesse dela, veja bem) sem ser flagrada e sem conseguir conter os espasmos aqueles que antecedem os ataques de riso, com direito a se esconder atrás da primeira pilastra, com a intenção vã de não ser vista.

Não dá.

Não dá mêischmo.

Pra completar, ainda escrevo diarinho na internet contando a situaçã.

Será uma reação natural à passagem da idade? Digo isso porque ao menos tenho a felicidade, se é que dá pra considerar assim, de não passar por micos do gênero desacompanhada, já que minhas amigas, igualmente balzaquianas, estão juntinho à mim nesta regressão e não auxiliam, absolutamente, na incorporação do jogo de sedução que era no mínimo uma obrigação aos quase 30 saber usar.

Um pouco menos mal.

...

Ou não.

30 de julho de 2007

Modigliani

26 de julho de 2007

Eu escolho a Fal!

Sai Pires e entra Jobim? Sério? É essa a solução do Lulalelé pra crise? Não, sério mesmo, tipo, é sério? Eu perdi algum capítulo, foi isso? O mundo acabou, vcs não me avisaram e a vida é assim mess? Então vão por quem na presidência da Infraero? A Soninha? O Sérgio Malandro? Eu? Escolhe eu tio, Tio Jobim, eu, eu, eu!

25 de julho de 2007

Só a yoga salva


A yoga foi decidamente a melhor coisa que inventei nos últimos anos. Aquela frase lá do “viver é reinventar a vida a cada novo dia”, eu tenho levado ao pé da letra, de maneira que minha vida tem se resumido a invenções de toda a ordem.

Fazia tempo que eu não me sentia assim, com essa sensação de primeiro dia do resto de nossas vidas. De acordar para o dia em que as coisas podiam ter sido, mas não foram.

Viver na mornidão tem suas vantagens, mas, em contrapartida, tudo se torna tão mais avassalador quando acontece. E quando não acontece também.

Lendo isto, o Thi lembraria imediatamente da frase bíblica que diz: “Seja quente ou seja frio. Não seja morno que eu te vomito”.

Mas, aí, a gente vai pra yoga, completa uma dúzia de posições e reaprende a respirar usando toda a capacidade respiratória.

É consolador.

Da nossa Rainha:

Apetece-me

Apetece-me tomar-te de assalto e fazer-te refém das minhas vontades.
Do meu afecto.
Apetece-me que te apeteça também.
Apetece-me ser crescida e poder ter destes apetites.
Apetece-me dar mais de 21 gramas a uma alma magra de alegrias.
Apetece-me não me enganar.
Apetece-me que não me enganes.
Apetece-me guardar o passado e aguardar o futuro.
Apetece-me que os afectos tenham uma existência concreta.
Apeteces-me. Sem aditivos. Sem corantes. Mas com conservantes.

9 de julho de 2007

Hoje, como era de se esperar, presenciei minha primeira experiência de rebelião da plebe rude contra a trilha sonora que embala a todos nós, proletários, a caminho do trabalho, no transporte coletivo.

Alguém trouxe um rádio e ligou um reggae bem alto, enquanto ao fundo, 'As Rosas não Falam', instrumental, tentava acalmar as pessoas usuárias do ônibus, numa segunda-feira cedo.

Veja que são músicas de classe. A música escocesa não é ruim não, pelo contrário, e ‘As Rosas não Falam’, bom, ...essa menos ainda. Mas as pessoas curtem o barulho, não adianta. Quanto mais ruído e mais volume, melhor. Não basta o horror no que o transporte coletivo pode se transformar em determinadas horas do dia, as pessoas gostam mesmo é de piorar o que já é ruim.

É uma tendência mundial? Porque eu não faço parte. Eu não faço parte de nenhum grupo de maioria, na verdade, mas, ainda assim, imaginava eu, seguindo o bom senso coletivo, que a musiquinha instrumental colaborava para a pacificação das massas.

As pessoas devem se irritar por alguém estar tentando acalmá-las, deve ser. Ovelhas insubordinadas. Uma pena que não se insubordinem pelas razões devidas.

3 de julho de 2007

A gente vê que ficou pra titia quando a nossa chefe passa a comentar de todo e qualquer cliente, remanescente solteiro mais ou menos apresentável, com os olhos brilhando e o ar de quem sugere, no melhor estilo da querida e saudosa Cris: TUA CHANCE, Mariana!!

As pessoas se incomodam com os solteiros não?

Sempre partem do pressuposto de que se não tem, está procurando, e, se não está procurando, é uma dissimulada da pior espécie. Bom, devo ser uma dissimulada da pior espécie, mas não por outra razão, além da de manter comigo a absoluta convicção de que certas coisas não se procuram, ...apenas se encontram, graças a alguma conjunção astral favorável.

E acredito piamente de que nada, mas nada mesmo que vc faça com o intuito de fará alguma diferença no andar da carruagem.

Falamos de 'encontro', bem entendido. Após o encontro, existem aquelas outras cento e cinqüenta mil variantes/determinantes que fatalmente levarão ao fim, com poucas e cada vez mais raras exceções honestas.

Mããs, a variante “total inabilidade para a conversação com qualquer ser do sexo masculino desconhecido mais ou menos apresentável” deve ter algum peso na manutenção do statu quo solteiro, passo a ponderar.

Sim.

...

Certamente que sim.

No ônibus, música instrumental escocesa, ou, algum outro álbum que bem poderia ser a trilha sonora de "Coração Valente" e ter um clip em que Mel Gibson corre pelas montanhas do Reino Unido de saia xadrez pregueada;

Andarilha vestida de quimono preto florido e com um coque no alto da cabeça que estende um tapete (que costuma carregar nas costas) na grama da praça e começa a dançar sozinha e a girar com os braços abertos;

Casinha branca bucólica escondida no Alto da XV ocupada por pessoas vegetarianas que usam nomes zen, cantam mantras indianos e tocam pianinho com fole.

Às vezes a vida se parece demais com alguma coisa que não existe.

1 de julho de 2007

Essa idéia de que o amor para ser completo deve incluir o momento da separação já foi tema de um dos textos do Jamil Snege, com o qual, apesar de me agradar a poesia, jamais concordei, o que me deixava naquela posição desconfortável de discordar de alguém que se admira e a quem, até então, eu somente lia assentindo positivamente com a cabeça. Tinha a impressão de que a intenção era apenas a de criar polêmica, mas vejo que a idéia é antiga e até bastante propagada.

Passei a estranhar menos, no entanto, depois de ler a uma entrevista em que ele falava sobre o assunto e explicava o seu ponto de vista à entrevistadora:

"Sim, os grandes amores sempre se acabam. Todos nós precisamos de um grande amor finito, interrompido, para continuarmos a crer na infinitude do amor. (...)

Lembrei-me então de um conto de Graham Greene, que li há muito tempo, chamado "Visita a Moritz". Um sujeito muito rico tem uma doença crônica aparentemente incurável. Depois de percorrer os grandes centros médicos do mundo, informam-lhe que vive em Moritz um obscuro doutor em cujo histórico clínico registram-se casos de cura da rara doença. O homem viaja a Moritz e hospeda-se num hotel. No dia seguinte, pela manhã, sai a caminhar pela pequena cidade e logo localiza o endereço do médico. Uma rua aprazível, um chalé com um belo pé de tília no jardim. Aquela atmosfera acolhedora anima-lhe a visita. Mas ele não chama pelo doutor. Não entra. Limita-se a contemplar a casa, a modesta placa de madeira que a brisa matinal balança. Retorna ao hotel e na mesma noite inicia a viagem de volta.

Minha entrevistadora sorri. A fita acabou finalmente. Desnecessário explicar-lhe o óbvio. Conservar viva uma esperança, mesmo que para isso tenhamos de renunciar ao objeto de nossa busca."

O amor é um lugar estranho.

Temos que aceitar (e suportar) que, sobretudo entre apaixonados, a comunicação é basicamente equívoco, mal-entendido, erro de interpretação, e que tudo o que os amantes podem inventar juntos sempre inventarão sobre as ruínas da comunicação, não sobre seus êxitos.

Alan Pauls, escritor argentino, em entrevista sobre o seu mais novo e badaladíssimo livro "O Passado".

25 de junho de 2007

Deixemos as mulheres apenas bonitas para os homens sem imaginação.

Marcel Proust

22 de junho de 2007

O abandono do blog querido.

É que a coisa tá preta, minha gente. Preta mêischmo. A tendinite no pulso já denunciava o stress percorrendo o corpo da pessoa, além da mente que já não descansa, né, não tem jeito. Agora os efeitos do esgotamento estão se generalizando, ao ponto da pessoa só estar no aguardo de pifar, mas pifar assim miseravelmente, numa coisa muito óbvia e básica do desenvolvimento das atividades profissionais.

E a academia, meu deus!!!

E os exercícios físicos, sem os quais a pessoa não conseguia viver sem por muito tempo?

O horror do sedentarismo, a ausência de vontade para toda e qualquer atividade saudável e geradora de energia.

Vejam, reparem só, o início, o prenúncio do que está por vir:

Fernanda diz:
bonjour mary
Fernanda diz:
viu o email daquele cretino?
Mariana diz:
oi fer
Mariana diz:
acabei de ler
Mariana diz:
tô bufando
Fernanda diz:
é uma piada né
Mariana diz:
vou responder o email desse pulha


(...)

Mariana diz:
fer, acabei de mandar email pra ele
Mariana diz:
já chegou aí pra vc?
Fernanda diz:
chegou
Fernanda diz:
ótimo mari
Fernanda diz:
apesar de q eu acho q não vai surtir efeito nenhum
Mariana diz:
sim,
Fernanda diz:
esse idiota vai continuar tirando o corpo fora
Mariana diz:
mas que falta de tudo viu
Fernanda diz:
e mandando a gente se virar
Mariana diz:
mas vê se tem cabimento a gente simplesmente se atravessar
Mariana diz:
o professor não sabe nem de que buraco a gente saiu

Fernanda diz:
sim, bem isso
Fernanda diz:
qdo eu acho q eles já fizeram de tudo
Fernanda diz:
me vem esse pateta lavando as mãos
Mariana diz:
fer, eu tô escrevendo um email aqui pro blublublu
Mariana diz:
queimando um pouco a minha cara
Mariana diz:
um pouco mais, melhor dizendo
Fernanda diz:
aproveita pra queimar a cara da bliblibli
Fernanda diz:
diz q pedimos pro xxxx q intermediasse o contado
Fernanda diz:
mas q não obtivemos qualquer resposta
Fernanda diz:
e q estamos abandonadas a propria sorte

(...)

Mariana diz:
viu a resposta do cara?
Mariana diz:
conseguiu falar e não dizer nada
Mariana diz:
perguntei objetivamente como devemos proceder
Mariana diz:
vc entendeu o que é pra gente fazer agora?
Fernanda diz:
eu acho q ele só deve ter encaminhado o nosso email pro cara agora
Fernanda diz:
e mandou a gente se virar
Fernanda diz:
simples assim
Fernanda diz:
note q ele nunca está errado e sempre faz o q tem q ser feito
Mariana diz:
síndrome de bom moço


(...)

Mariana diz:
viu essa?
Mariana diz:
mandou agora o email pro blublublu
Mariana diz:
te contar viu
Fernanda diz:
eu disse, só depois da tua cutucada é q ele se coçou
Fernanda diz:
ahhhhhhhhhhh
Fernanda diz:
q vontade de avançar nesse mané
Mariana diz:
ave
Mariana diz:
viu isso?
Mariana diz:
agora ele desatou a escrever pros professores
Fernanda diz:
pois é



(...)

(...)

Mariana diz:
fer
Mariana diz:
fer fer fer
Mariana diz:
meu deus
Mariana diz:
diga que eu não fiz isso
Mariana diz:
diga que eu não fis
Mariana diz:
fizzzzzzzzz
Mariana diz:
isso é hora pra erros de portugues
Fernanda diz:
hã?
Fernanda diz:
do q vc tá falando?
Mariana diz:
fer de deus
Mariana diz:
eu respondi o teu email para o xxxxx menina
Mariana diz:
aquele em que vc disse que ele não teve a decência de enviar o email pro professor
Fernanda diz:
como assim?
Mariana diz:
eu não acredito
Mariana diz:
eu preciso de férias realmente
Fernanda diz:
meu deeeeeeeeeeeuuuuuussssssss
Fernanda diz:
eu te mato
Mariana diz:
olha o que eu tô fazendo
Fernanda diz:
orra, orra, orra
Mariana diz:
duas vezes ainda
Mariana diz:
não fer
Mariana diz:
mil perdões
Mariana diz:
eu quero morrer
Fernanda diz:
eu tacando a boca no cara
Mariana diz:
jesus maria josé
Mariana diz:
me desculpe
Fernanda diz:
bom, eu falei a verdade né
Fernanda diz:
ele não tinha passado email nenhum até então
Mariana diz:
sim
Mariana diz:
brincadeira isso
Mariana diz:
eu sou um perigo
Fernanda diz:
é mesmo!
Mariana diz:
eu represento perigo para os demais seres humanos
Mariana diz:
eu tenho que tirar uma licença
Mariana diz:
licença saúde
Mariana diz:
não, ...ele vai achar que eu realmente quis passar o email com o teu comentário porque foram duas vezes
Fernanda diz:
duas???????????
Fernanda diz:
ai deuso
Fernanda diz:
ai deuso
Fernanda diz:
mariana do céu
Fernanda diz:
tu me mata
Mariana diz:
eu preciso ser afastada, tô falando
Mariana diz:
eu mandei um último email agradecendo a atenção, depois que ele mandou a enxurrada de emails dele
Mariana diz:
bom, ao menos, (eu sei que não melhora muito), mas ao menos, os últimos emails foram educados
Mariana diz:
eu vou me desculpar até o fim da minha vida, viu fer
Mariana diz:
e vou ajoelhar no milho hoje
Fernanda diz:
hahahahahahaha
Fernanda diz:
eu até fui polida com ele
Fernanda diz:
pelo menos não chamei de pateta
Mariana diz:
sim, graças
Mariana diz:
graças ao bom Deus
Mariana diz:
e do jeito que ele é confuso, não vai saber quem escreveu pra quem
Mariana diz:
pode ter sido eu mesma

11 de junho de 2007

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".

Caio Fernando Abreu

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.