29 de dezembro de 2009

Voltamos do Rio Grande ontem, numa viagem - agora sim - calma e tranquila, de menos de dez horas. Nada daquela loucurada que foi a ida, a mais cansativa de todas.

Lá nos pampas, aquele calor descomunal de sempre. Trinta e cinco, trinta e seis graus, quase sem vento. E a gente procurando lugar para ir para pegar a menor brisinha que passasse.

Noite de Natal passada botando os bofes para fora, por conta da mistura de comidinhas leves e o clima ameno (chegada com "salsichão" - linguiça, para o resto do país -, dia seguinte com carne, pastel e cerveja, e mais os tais trinta e tantos graus). De modos que nem oi pude dar para a familiagem que se acumulava.

Sem muitos problemas, pois no dia seguinte o almoço de Natal é um repeteco da noite. Em meio às 94359033 perguntas de "melhoraste?", eis que de fato melhorei e foi tudo festa dali pra frente.

Hoje dormi, menos do que planejado, e vim para o escritório agora à tarde.

Mas só para descobrir que o telefone nem o interfone tocam, o calor ainda é grande, e as coisas por fazer, todas tão planejadas durante a folga de Natal, vão mesmo ficar para o ano que vem, que a paciência se esgotou, o ânimo não exisste e, afinal, isso não é vida.

A idéia era não deixar tudo acumulado para a primeira semana de janeiro, quando as coisas voltam ao seu normal, mas não há meios, porque trabalhar já vamos mesmo de qualquer maneira, e o ritmo aqui essa semana está lento que só. Daí que, decretei-me feriado até ano que vem, com pausa para um protocolozinho amanhã de manhã. Mas só.

A revolta da pipoqueira.

Que de correria eu entendo bem e vou deixar pra amanhã o que podia fazer hoje. Sem dor na consciência e com a maior e mais bem vinda preguiça dos últimos tempos. Afinal, uma das metas de 2010 e do resto da vida, é trabalhar esta ansiedade fiadamãe que me consome os pacová.

Modos que, feliz anonovo pra todos os milhares de vocês aí, e inté janeiro!

24 de dezembro de 2009

Ao invés de dez horas de viagem (já fizemos em nove horas e meia até), eis que demoramos mais de onze horas pra chegar aos pampas.

Muito movimento, chuva, neblina e caminhões por todos os lados.

Daí o que já era cansativo, virou esgotante mesmo.

Mas então chega-se ao destino, descarrega-se o carro, acomoda-se um pouco. Já não está aquele calorão típico da época, mas justamente por causa da chuva, o clima é o mais ameno possível. Agradabilíssimo, diria. E já se prepara para anoitecer, perto das nove da noite, tão diferente de Curitiba.

E se dá de cara com isso.



E se esquece de todo o cansaço (ou boa parte dele) e se lembra do quanto vale à pena vir reencontrar as pessoas, descansar o corpo e o espírito.

Porque isso aí em cima não é nenhuma novidade aqui não, é coisa corriqueira. A cada vinda a gente volta com pelo menos uma dúzia de fotos iguais a essa, tiradas aqui do quintal mesmo. Sem efeitos e sem nada, que não precisa.

21 de dezembro de 2009

Viagem à vista depois de amanhã.

E a maior preguiça do mundo de arrumar as coisas.

Nessas alturas eu juro que achei que não ia estar trabalhando assim tão intensamente. Até de calça jeans eu fui hoje pro escritório. E sapato baixinho, toda esporte.

Mas não adiantou.

Enganei todo mundo, menos os prazos.

Daí que amanhã começo o dia, cedo, em Colombo.

E depois volto pra fazer outras cousas de trabalho muito mais sério do que eu desejava. Pelo menos nessas alturas.

Natal no Rio Grande e Ano Novo em Curitiba, sem intervalo de tempo suficiente pra ir pra praia ou qualquer outro canto do mundo para a virada.

Não que eu fosse, que a preguiça – sempre ela – é grande.

Mãs.

É sempre bom ter a ilusão das opções abertas.

5 de dezembro de 2009

Das surpresas boas.

Algumas coisas acontecem pra dar aquele ânimo, aquele incentivo e pra recobrar aquela velha – porém cansável – fé nas pessoas. E na justiça dos homens, digamos.

Foi o caso de uma ação assim tão urgente que acabou mobilizando todo o escritório, de uma menina com caso sério sério de câncer, e que teve negado do plano de saúde um dos medicamentos pra sua quimioterapia. E que piorou drasticamente e precisava de tudo para ontem. E faz ação à noite, pra distribuir no outro dia, e corre daqui e corre dali, e fala com um e com outro. E a coisa faz efeito, e sensibiliza as pessoas, e corre tudo bem. Que é bom variar um pouco de tanta desgraça.

Quatro horas depois da distribuição, liminar deferida, mandado expedido na mesma hora, oficial de justiça que sai correndo e ligação no final da tarde de funcionário do próprio plano de saúde, dizendo que as guias já estavam todas liberadas.

E a alegre ligação pra mãe da menina, que, muito cansada, ainda consegue agradecer.

E daí se respira. E se consegue e se permite sentir o cansaço acumulado de todo o esforço de tudo que se faz nessa vida, que se tentou nessa e em outras causas, com ou sem resultado bom.

Que a vida tem disso, de surpreender. Pro bem também.

É bom pra lembrar e pra retomar o fôlego nessas alturas.

29 de novembro de 2009

Depois de um final de semana chuvoso, eis que agora, aos quarenta e quatro do segundo tempo, faz um domingo de sol, muito sol.

E tentando muito muito fugir do monotema do cansaço extremo e do trabalho que suga as poucas energias que se tem. E só se consegue poupá-las um pouco deixando de fazer a lição de casa que tinha que se feita, mãs. Compensa pra descansar, mas já já pago com juros com a ansiedade do cão que vem junto com a noite do domingo, e com a musiquinha do Fantástico.

Sei que o Inter aqui jogando e o digníssimo perdendo a paciência. É um que tem que perder, outro não pode ganhar e outro que também não pode de jeito nenhum. E ele que tem que ganhar. E tudo isso ao mesmo tempo agora. Apesar do nó na cabeça das milequinhentas mudanças de canal, ainda assim é melhor, que não fica essa coisa de futebol o dia inteiro sem parar. Não que eu não goste, mas quando se descobre que é possível ver futebol todo santo dia da semana nos mais diversos continentes deste nosso mundo, sem contar o diacho do winning eleven, vai-se pegando um pouco de birra. Um pouco só. Da cor verde e de barulho de torcida. Síncopes.

Esta é a vista neste exato momento. Que ilustrar sempre é bom, todo um contexto.



De vez em quando a gente fica invisível. Faz e acontece e ninguém percebe. Fato este especialmente notório quando em jogo do Inter, de verdade. O que não é ruim, não mesmo. Muito interessante, diria.

Na tevê, chove no jogo do Atlético, que é aqui em Curitiba. Aqui, tão perto, ainda não. Mas já vai.

28 de novembro de 2009

Hermann Hesse, amigo.

“Assim como agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isso contra a minha vontade, assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E tem razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou. Se às vezes desprezo e até me burlo dos homens nestas páginas, não será por isso que os culpe de minha indigência pessoal! Mas eu, que cheguei tão longe e estou à margem da vida, de onde se tomba à escuridão sem fundo, cometo uma injustiça e minto, se pretendo enganar-me e enganar os outros, como se funcionasse também para mim àquela mecânica, como se continuasse a pertencer àquele mundo nobre e infantil do eterno jogo!”

(O Lobo da Estepe.)

20 de novembro de 2009

O do Rubem querido, que ficou faltando.

A ansiedade é o buraco deixado pelo desejo esquecido, o buraco de um coração que não mais existe: grito desesperado pedindo que o desejo e o coração voltem, para que se possa de novo gozar a beleza da copa do ipê contra o céu azul. Tão terrível é esse vazio que vários rituais foram criados para exorcizar os demônios que moram nele. Um deles é a minha agenda – e a agenda de todo mundo. Quando a ansiedade chega, basta ler as ordens que estão escritas, o buraco se enche de comandos, e se fica com a ilusão de que tudo está bem. E não é por isso que se trabalha tanto – da vassoura das donas de casa à bolsa de valores dos empresários? São todos iguais: lutam contra o mesmo medo do vazio.
“E vós, para em a vida é trabalho e inquietação furiosos – não estais por demais cansados de viver? Não estais prontos para a pregação da morte? Todos vós para que o trabalho furioso é coisa querida – e também tudo o que seja rápido, novo e diferente – vós achais por demais pesado suportar a vós mesmos; vossa atividade é uma fuga, um desejo de vos esquecerdes de vós mesmos. Não tendes contudo suficiente em vós mesmos para esperar – e nem mesmo para o ócio” (Nietzsche).
Por isso ligamos as televisões, para encher o vazio; por isso passamos os domingos lendo os jornais (mesmo quanto nossos filhos brincam no balanço do parquinho), para encher o vazio; por isso não suportamos a idéia de um fim de semana ocioso, sem fazer nada (já na segunda-feira se pergunta: “E no próximo fim de semana, que é que vamos fazer?”); por isso até a praia se enche de atividade frenética, pois temos medo dos pensamentos que poderiam nos visitar na calma contemplação da eternidade do mar, que não se cansa nunca de fazer a mesma coisa.
Certos estão os taoístas: a felicidade suprema é o Wu-Wein, fazer nada. Porque só podem se entregar Às delícias da contemplação aqueles que fizeram as pazes com a vida e não se esqueceram dos próprios desejos.


Esse é d’As melhores crônicas de Rubem Alves, da Editora Papirus.

No final das contas não tinha assim tão a ver com o que eu ia dizendo, mas é sempre bom.

E não devo mais nada também.

Já que o tempo passou

E provavelmente ninguém mais se aprochega a este espaço perdido entre tantos outros milhares de novos espaços surgidos de lá pra cá, peço licença para um diálogo público com a capanheira Mariana, amiga de todas as horas e co-proprietária desta bodega.

Merilú, que fazer.

Que depois de muito mais de seis meses sem nem abrir a coitada desta página, e depois da idéia de bar de de repente inaugurar outra página para mudar de ares e ver se a coisa re-engrena (que eu nunca deixarei de usar hífen e trema), agora que cá vim, tenho eu as minhas dúvidas.

Que a gente se apega aos filhos, né mesmo?

E lendo as escritas de outrora, concordo contigo em tudo: ó, a espontaneidade. E pergunto aqui logo em seguida: para onde diabos ela foi?

Eu mesma nem reconheço a capacidade e a criatividade dos textos escritos, lá no falecido outro blog. Mesmo nas épocas róseas, a coisa ia ao menos livremente, sem pensar e sem precisar ter tempo.

Agora não se tem tempo, não se cria tempo, e no pouquíssimo que se tem, as coisas não fluem. Não se tem idéias, nada vem e só se quer descansar. Descansar do trabalho, dos prazos, dos clientes, do trânsito e da semana que se vai com uma rapidez desesperadora. De ligar a televisão, pois nem pro silêncio se tem mais paciência. Sobre isso tem alguma coisa num texto do Rubem Alves, que eu estou lendo, mas não está aqui. Fico devendo.

E daí que a gente perde o fio da meada, de tanto desacostume.

Mas o facto é que não escrevemos, Márê. E precisamos. Que bem lembro que as coisas eram mais leves dantes. E pode ser, não se sabe, que tenha alguma coisa a ver com isso, de escrever. E com todo o desprendimento que vinha com a escrita. E da falta de compromisso com qualquer coisa ou pessoa. Até nomes completos, lugares e profissões a gente, muito desavisadamente, deixava ali, para quem quisesse ver ou pesquisar. Não precisamos ir tão longe na regressão, que bem sabemos que a responsabilidade está aqui e não se pode fugir tanto.

E daí, voltamos?

Vamos ou ficamos?

Esse lugar ainda dá um caldo?

Pois começo a achar que sim.

Ou não.

Que bem podemos ir pra outro lugar e começar tudo de novo em novos ares.

Ou recomeçamos de onde paramos?

De qualquer maneira, recomeçar é preciso.

Que achas?

4 de novembro de 2009


“Quando um óvulo é fecundado por um espermatozóide, ele logo começa a se dividir. A primeira célula vira duas, essas duas viram quatro, as quatro viram oito e por aí vai. Até atingir o número aproximado de trinta e duas, o que leva uns três ou quatro dias, essas células são chamadas de células-tronco totipotentes. Isso significa que cada uma delas é um ser humano em potencial. Podem desdobrar-se não apenas em qualquer tecido do corpo, mas também na placenta e em outras estruturas extra-embrionárias essenciais para o desenvolvimento do feto no útero. Depois as células começam a se especializar. Surgem as pluripotentes, que podem se transformar em qualquer tecido, e as multipotentes, que podem se diferenciar nas células de determinado tecido ou órgão. As células ganham empregos e adultas. Apesar de ainda guardar a informação genética completa, elas esquecem de como usá-la. Sofrem lavagem cerebral para ser apenas fígado, neurônio ou glândula pituitária. Tem todas as pecinhas, mas só uma página do manual de montagem. No entanto, está tudo ali, adormecido. Esse potencial de ser qualquer coisa. A visão do todo necessária para gerar um novo ser. Comecei a me informar obsessivamente sobre essas coisas ainda em São Paulo, ainda com Danilo, mas só agora, enfim grávida, afundando as botas na neve por uma trilha que me levaria ao cume de uma montanha, me ocorria que devia haver um paralelo entre as vicissitudes do embrião e a angústia humana de ter de se contentar com a limitação do que somos. Como se o corpo e a mente carregassem do nascimento à morte a nostalgia daquela totipotência. Simplesmente não nos conformamos. Ninguém nos ouviu. Não fomos consultados pelas forças que nos deram forma e nos reduziram a algo tão menor e mais específico do que...do quê? Não sabemos, nunca recordaremos por completo, mas não importa, porque o intuímos em toda a sua imensidão. Montanhas e oceanos nos fazem pensar nesse tipo de coisa.”

Galera, Daniel. “Cordilheira”.

1 de outubro de 2009

"Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir."

Clarice Lispector.

10 de fevereiro de 2009

"O sentimento de desespero nunca é súbito, não é um desabamento – é o fim de uma escalada mental que vai queimando todos os cartuchos da razão até, aparentemente, não sobrar nenhum, e então a idéia de solidão deixa de ter o charme confortável de uma idéia e ocupa inteira a nossa alma, em que não caberá mais nada, exceto, quem sabe, a coisa-em-si que ele parece procurar tanto: o sentimento do abismo. (Não se mova, que dói.)"

Tezza. Cristovão. O Filho Eterno.

4 de fevereiro de 2009

E a pessoa ama ainda mais ter 30 anos quando vê que, não bastassem tooodas as demais vantagens, ter 30 anos é tão emblemático que também impede vc de deixar de fazer coisas por conta de acessos repentinos de infantilidade, chiliques de insegurança e afins. Porque né, vc tem 30 anos, o que te dá toda a autoridade pra agir como tal.

É realmente o máximo.

21 de dezembro de 2008

Ah, o Natal.


Época de se ouvir Simone onipresente nos mercados, elevadores e estacionamentos de shoppings.


Época dos amigos secretos e suas frustrações. Esse ano o senhor meu pai foi finalmente poupado pelo destino e foi minha mãe a escolhida, para dar kits artesanais todos perfumados e atenciosos e ganhar em troca um simples panetone. Vendo-se em perspectiva é lucro, porque do Seu Cosme, que já ganhou cinto usado – até com os quebradinhos do uso do couro – e, em outro ano, perfume empoeirado encalhado há sabe-se lá quantos anos na penteadeira da pessoa, ninguém ganha. Sorte que são desses amigos secretos da correria, em que o sorteio é feito já na hora da revelação, que senão Seu Cosme começaria a duvidar de seu carisma. Mas não, por sorte é só azar.


Época das confraternizações de fim de ano, e do povo querer se encontrar pelo tempo que não conseguiu se ver durante o ano inteiro, resultando em uma média de três jantares por noite, e duas turmas diferentes por noite frustradas com sua incapacidade – cooomo isso? – em estar em dois lugares ao mesmo tempo.


E quilos que se acumulam às vésperas do verão, muito oportunos.


Tempo de shoppings lotados, supermercados intransitáveis e trânsito caótico. E da fuga em massa para o litoral. E da correria para aproveitar o – pouco – tempo pra conseguir se arrumar para a viagem de Ano Novo. Data esta que eu mesma passarei no meio, quase que literalmente, do Rio Grande amado do ilustríssimo, com sua família, na calmaria completa de cidadezinha. Fazer nada é o meu grande e esperado plano de final de ano. E pescar, comer e beber nos intervalos.


Entonces, se a gente não se ver até lá, feliz natal pra todos, com direito às esperanças todas e amoRR próprios do momento.

Machado sabe das cousas.

Esquecer é uma necessidade.
A vida é uma lousa, em que o destino,
para escrever um novo caso,
precisa apagar o caso escrito.

26 de novembro de 2008

Os gugonautas.

Termo este de lavra da Cris querida, não esqueçamos.

Tão abandonados os gugonautas, mas ainda assim, só de ver agora rapidinho, as incansáveis buscas:

peças teatrais curtas sobre o cotidiano
pessoa nervosa - this is THE place, beibe.
baixar livro o doido da garrafa - faz isso com Adrianinha não, vai. Compra lá.
triciclos aquatico para o mar

A diversidade, essa maravilha.

23 de novembro de 2008

Lindo!

10 de novembro de 2008

Foto, foto, adoro foto!

Entonces que a última remanescente dos vinte fechou a década e se encontra enfim com 30.

Que continuam legais, diga-se, mesmo após a ressaca de segunda. Como diria a Sio, que tudo seja imensamente melhor, com exceção das ressacas... que com o tempo só pioram.

Eu fico realmente perdida quando sequer consigo definir, quanto menos expressar, o sentimento do momento. E quando vejo que tudo caminha um caminho paralelo: ao lado, mas sem encontro.

Talvez essa seja a grande metáfora da vez. Ou da vida.

Por que tanta delicadeza eu me perguntava, quando eles me atropelam com um caminhão todas as vezes. Cuidaremos de cultivar o cinismo como maior e melhor arma de defesa na próxima década. Porém sabemos que não há defesa para tudo isso. Não há mesmo defesa para tanto.

Quem sabe numa outra vida, quando formos gatos.

31 de outubro de 2008

Só pra não deixar o mês inteiro passar em branco.

Tudo bem que é feio, muito feio, só copiar e colar depois de tanto tempo sem notícias, mas a coisa ta braba, pessoar. Mas sobreviveremos para contar, quando der tempo.

Por enquanto, é daqui, como sempre, que vem a salvação ao abandono.

O doido da garrafa
(Adriana Falcão)


Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido.

Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.

O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco com um nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou dezessete dias para ser construída.

Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Uai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba, uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do atravessando, da rua e do apressada. Geralmente ficava uma obra-prima.

Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro de café, de cantar e de ouvir música. Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De cabelo ele gostava. Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão, tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de educação e à palavra bife.

Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de estilo.

Tinha mania de dar entrevistas para o vento e já sabia a resposta de qualquer pergunta que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.

Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias, como dorinfinita.

Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas tão difíceis com eles.

Conhecia mitologia a fundo.

Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas, porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente de Proserpina.

Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e orgulhava-se muito disso.

Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.

Às vezes falava sozinho. Preferia tristeza à agonia.

Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém percebesse que ele não tinha para onde ir.) Enquanto andava, repetia dentro da cabeça incessantemente a palavra ecumênico sem ter a menor idéia da razão pela qual fazia isso.

Durante o dia o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto, supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a mulher aplicar em fundos de investimento.

No fim do ano ia trocar de carro.

Era excelente chefe de família.

Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho.

25 de setembro de 2008

Não, e sabe que estou nesta coisa de mal parar no escritório pra fazer os prazos e mais prazos que se acumulam, o que força o trabalho em casa, que é coisa que abomino e tento evitar ao máximo mas que às vezes realmente não dá. E nesse ritmo intenso, o “às vezes” se torna praticamente tododia.

Que toda semana tem audiências e mais audiências. All the time. E daí eu que nem sou lá muito fã das audiências todas, acabo me irritando ainda mais porque além de ter que as fazer assim, duzentas e oitenta e cinco vezes mais do que eu gostaria, ainda fico muito mais tempo fora dos tais prazos, que não param de se acumular e causar os mais freqüentes trabalhos em casa até altas horas.

Mas ainda assim há surpresas.

Daí que se criou um feliz hiato entre as 5943085943 audiências de setembro – mês em que jurei que se não me mudasse pra China agora, nunca mais que ia – e as do começo de outubro, modos que entre dia 23/09 atéééééé 06/10, eu mesma só gerenciaria as cousas e mandaria pessoas fazer audiências, e eu mesma não faria nenhuma. Uma benção, praticamente, de poder ficar efetivamente dentro do escritório fazendo as duasmiltrezentasesessentaetrês peças processuais em pendência. Período em que, teoricamente, diminuiria o tão abominado trabalho em casa.

Teoricamente.

Porque sempre tem os clientes que ligam avisando no dia que precisam de alguém pra fazer coisas no mesmo dia.Tipo assim. Ninguém tem nada marcado nunca, e eu fico aqui lendo jornal mesmo, então essa coisa de avisar em cima da hora não tem problema nenhum, imagina. Sendo que por “coisas”, entendam outras audiências, ou reuniões, ou auditorias e afins.

Mãs, no caso de ontem, foi uma reunião. Com pessoa dos setores municipais do meio ambiente, às tais horas, por causa de multas indevidas, como todas são. Respirei fundo e ainda assim praguejei. Praguejei contra tudo e todos que me inventavam coisas não previstas pra fazer em dia de intenso labor programado e organizado. E assim, pra ontem.

No fim, imensa surpresa. Grandessíssima surpresa ao – depois de me perder, é claro – ver que o tal do setor do meio ambiente ficava, ele mesmo, em meio de enorme área verde de, acho eu, reserva ambiental. Nada mais propício, mas ainda assim surpreendente.

Porque vejam. Reuniões de órgãos públicos pra discutir a aplicação de multas a clientes são sempre em prédios cinza, em dias cinzentos, depois de congestionamentos, e de duas horas e meia de espera. É assim e pronto.

Mas que nada. Esse setor aí era no lugar mais lindo do mundo. Ou da cidade, pelo menos. Bosques para todos os lados. Construções de tijolinhos, sendo que cada bloco era praticamente um chalé. E pra chegar de bloco em bloco, era através de pontezinhas de madeira ou pedra, com um rio cheio de mini-quedas d’água que passava por todo o lugar. Sério gente. Imagina a minha cara de surpresa. Eu, de terno preto e pasta preta – que combina perfeitamente com os prédios cinza, asfalto e congestionamento – destoando da paisagem.

Fiquei tão admirada que esqueci de tirar uma foto com o celular, pra vocês terem uma idéia.

Mas achei aqui, muito mais ou menos, pra dar uma pequenissima noção do que realmente é a coisa toda.



Pra se ter noção, na hora da tal reunião, no gabinete da otoridade – cujas paredes (do gabinete, bem entendido) são inteiras de vidro, com visão pro bosque – eis que me passa um mico, todo faceiro, de árvore em árvore. Verdade verdadeira. Perdi totalmente o fio da meada do que estava sendo tratado e tive que comentar a passagem do mico, que não teve jeito. Fora uns tantos passarinhos diferentes. Coisa mais linda.

Isso que estava nublado e frio, então imagina com sol. Eu é que não ia trabalhar, isso é certo.

Na volta eu até tentei lançar a idéia de um eco-escritório, com rios, pontes e micos de galho em galho, mas não deu muito certo. Distração demais pra muito trabalho e pouco tempo.

Mãs, é algo a se pensar. Que eu trabalhando num lugar desses, certamente não estaria aqui na quinta-feira à noite tomando vinho e rezando pra acordar animada às seis e quinze pra acadimia. E rezando, mais ainda, pra dar conta do trabalho e não ter que trazer nenhuma lição de casa pro final de semana.

Estaria sim lá, paradona, ouvindo o barulhinho tão agradável das quedas d'água, procurando ver um mico ou um beija-flor, quem sabe. Que depois dessa, tudo é possível.

Aqueles dois.

Que já era pra eu ter feito a propaganda aqui há muito mais tempo, mas sacumé. Nem começarei a falar das correrias todas que isso já encheu o saco, eu sei. Mas ainda dá tempo, muita fé.

Pois então, foi essa A peça do Festival de Teatro deste ano. Aquele que a gente nem falou sobre em momento algum nessa vida, quando na verdade março era pra ser sempre o mês mais ilustrado e comentado por aqui pelas bandas do blog.

A melhor peça deste ano, sem dúvidas.

Em meio a várias medianas, que vou te contar. Esse ano foi meio morno, pelo que me lembro. Talvez me faltem as emoções todas do momento, caso eu fosse falar logo depois de ter visto as cousas, mas ainda assim acho que foi meio meio.

A Companhia é mineira, o que nos lembra de várias outras peças igualmente boas vindas de lá. Mais uma anotação no caderninho, ao lado de Campinas: Minas Gerais = bom.

Mas então, Luna Lunera, a Companhia. E texto de quem, quem? Caio Fernando Abreu.

Uma das adaptações mais fiéis de texto para o palco, atrevo-me a dizer cá em minha ignorância. Quatro atores se revezando em dois papéis, todos misturados e todos ao mesmo tempo agora, ora narrando, ora interpretando e assim vai. Um cenário com vários objetos que acabavam sendo usados para ambientar lugares e situações bem diversas. Livros, discos, televisão, cigarro e café.

A gente teve a sorte de ter sido no Paiol, que eu acho que caiu como uma luva pra disposição do cenário e dos atores. Como que se aproximasse mais, entrelaçasse mais, integração total com o público.

O conto está inteiro aqui, como sempre. Daí acho eu que nem preciso entrar muito no que seria a história, propriamente. E é de bom grado ler antes, como sempre. Até pra reparar quão boa é a adaptação, coisa de louco.

Confesso que, no meu preconceito adquirido ao longo de tantos festivais, fiquei deveras cabreira com a expressão corporal toda dos quatro homens que se encostavam, dançavam, coreografavam e interagiam assim, intimamente, antes do começo da peça. Ainda mais que estava eu com Merilú logo ali na primeira fileira, que na verdade era pra ser a segunda – boa visão, mas estratégica para esconder possíveis fiascos –, mas como a A era usada também pro material do cenário, a B virou A e lá ficamos nós assim, tão expostas.

Mas que nada. Lindo o texto, linda a peça. Excelente trabalho e muito bom de ser visto. Isso que fomos lá numa terça (ou seria quarta) de intenso trabalho e muita vontade de ficar em casa. Ou seja, até Moniquinha Salmaso – e não me orgulho disso – já foi alvo de bocejos em situações assim. E a peça não, em nenhum momento. O tempo passa daquele jeito bom que devia ser sempre.

Com o perigo de estragar uma surpresa na peça – então não leia as próximas linhas se quiser ver a apresentação antes sem saber de nada – até a cena de nudez é bem colocada. E olhe que nudez é outro dos meus tantos preconceitos e pés-atrás teatrais, que pra mim é dificílimo não ficar agressivo, muito pudica que sou. E quase sempre desnecessário. Mas nesta peça em específico foi até suave, se é que isso existe.

Então vão lá, que dá tempo. Sexta, sábado (a las nueve) e domingo (a las siete). Ótemo programa, altamente recomendável. E barato né, vá lá. Pelo que diz o folder, dérreal a inteira e cincão a meia. Pelamor, mais barato que o Festival e mais barato do que qualquer outra coisa do nível.

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”.