Daí que
É sábado, sendo que segunda é feriado e cá estou. Nada de viagens, nada de grandes planos para aproveitar os prolongamentos todos de dias de recessos, nada daquelas coisas pelas quais esperávamos ansiosamente nos tempos áureos de ócio. Ou de menos trabalho. Ou de trabalho normal, vá saber.
Ao contrário, cá estou na cidade mesmo, com o digníssimo marido trabalhando nas noites inteiras de sábado e domingo – um chuchuzinho – e três pocessos aqui do meu lado, que já há tanto me encaravam no escritório que os trouxe para passear. Sempre é bom tê-los por perto para um eventual ataque de ansiedade, que daí dá pra ir adiantando alguma coisa para aliviar as agonias todas.
Mãs. O facto é que – talvez na ânsia pelo novo, muito incauta – tentei me aventurar na cozinha. Sim, neste território nunca dantes explorado e desconhecido quase que inteiramente por esta que vos fala. Pra fazer uma sobremesa, nada de mais. Coisa que era pra ser muito simples, uma lata de leite condensado, uma de creme de leite, tantas colheres de açúcar, três ovos e chocolate em pó. Coisa envolvendo forno com banho maria, um desafio.
Coloca-se tudo no liquidificador e enquanto se unta a tal da forma com um buraco no meio, que tinha que ter o buraco pela receita, que todo o sabor se mudaria por completo em caso contrário. Bati tudo, experimentei – experiência adquirida de outras tentativas piores – e notei que havia esquecido o açúcar. Normal, de ciiiinco longos ingredientes, se esquecer de um. Daí que. Cadê que não há açúcar na casa. Açucareiro vazio, lavado e limpo. Não sei por quem, mas isso nem vem ao caso agora. Que fazer.
Eis que, muito sociável, fui em busca dos vizinhos, mais clichê impossível. Toca uma campainha e nada. Toca de volta, barulhos lá dentro, mas nada. Toquei a do lado, e o cachorro – ao menos – ouviu, que não parou de latir e causou um efeito em cadeia, de uns cinco ou seis cachorros latindo e uivando por todos os lados. Mas nada de alguém me atender. Saco.
Ta, fugi dos latidos todos e em casa encontrei uns adoçantes e, se não tem tu, vai tu mesmo.
Tudo muito certo, forma com furo devidamente untada e pronto, coloquei a mistura lá. O problema é que além dO furo, havia outros, modos que a coisa foi vazando. Tentei parar com o papel alumínio com o qual eu deveria cobrir a coisa pro tal do banho maria, mas nada.
Ah, e o banho maria. Antes disso eu reparei que nada havia nesse mundo em que coubesse a tal forma pra cozinhar no maledeto banho maria. Tive que tirar uma forma redonda com as carnes que vão ser cozinhadas amanhã – por quem sabe, maridón, e não eu, fiquem tranqüilos – limpar, lavar e lavar. Mas, como a coisa toda foi vazando e vazando, inclusive pelo chão, forno e pia – don’t ask – mudei tudo de lugar e foi em forma sem furo, sem untar e direto no forno. Que puta merda. Assim não pode, assim não dá.
Amanhã eu conto.
Tudo muito estressante, tenso e cansativo. Serei advogada pra sempre, que só isso. Se as leis e os problemas das pessoas acabarem, só o ponto cruz poderá salvar, que vou te contar.
Daí que cá estou quase no final da garrafa de vinho – aberta a duras penas, devo dizer (uma vergonha para a mulherRR independente que achei que era –, pra relaxar dessas tensões culinárias.
E alguém me disse que cozinhar era quase que uma terapia.
Sei.
20 de abril de 2008
14 de abril de 2008
E não é que no meio da loucura, descobri mulherzinha.
“Quando eu penso que escolhi a intensidade para lutar contra as coisas que são tiradas de mim com rapidez arrasadora, eu peço um pouco mais de tempo para que eu possa olhar com calma antes de tudo ir embora, até mesmo eu, que amanhã volto para minha vida e deixo a realidade do meu passado e o tempo, congelados na casa dos meus avós. Eu não dou conta de tudo.”
“Não me conformo com pouco e sempre digo que minha maldição enquanto mulher é não aceitar menos do que tudo, mas aceito de bom grado “a parte que me cabe nesse latifúndio”, mas que os meninos continuem meninos, e que Paris não esteja tão longe.”
Saudade matada daquele tempo de descobertas bloguísticas no meio das tardes intermináveis e de quando ainda rolava uma super identificação.
Eu também não dou conta de tudo, mas agora eu sei.
Consolo.
Postado por MARIANA em 9:20 PM 4 comentários
3 de abril de 2008
Eu sou uma pessoa nervosa.
Nervosa tipo ansiosa, não nervosa-brava. Antes fosse, até. Que de repente era mais saudável, vá saber. O que daria uma conversa muita grande e cheia de reflexões e tudo mais.
Enfim.
O facto é que eu, pessoa nervosa que sou, fico deveras agoniada com o abandono total do blog. Não pensem que não, que mesmo depois desse tempo todo sem dar o ar da graça, é tudo muito angustiante. Foi uma aligria de viver ter visto aqui Merilú ressurgindo e movimentando as cousas dantes tão paradas pela velha conhecida falta-de-tempo-pra-tudo-nessa-vida-quanto-mais-pra-escrever-no-blog.
E foi é coisa que aconteceu durante este silêncio, que nem sonhando vai dar pra atualizar bonito. Perdi o jeito pra coisa, eu acho, disso de transmitir os acontecimentos quase que em tempo real, com as impressões fresquinhas e sem muito enfeite.
Um belo dia hei de retornar à velha forma, muita fé.
Sei que o Festival querido chegou e foi-se, e nada foi comentado por cá.
Na vida real, fomos às peças, umas muito boas e outras, pra variar, nem tanto assim. Das minhas foram nove ao todo, as quais – talvez sendo até pessimista pelo ritmo das cousas – provavelmente não vão ser contadas assim, como antes. Mas qualquer hora sei que surgirão, mesmo que espalhadas no ano, quem sabe, que daí não falta assunto e fica aquela coisa super agradável do monotema.
Sei também que mudanças radicais foram um fator comum na vida das pessoas por aqui, boas, ruins, atropeladas, repentinas e boas de novo.
Como cá falo por mim, que senão falo demais, as mudanças todas ficaram em torno do trabalho, sempre ele. Continuo lá no mesmo, como há quase nove anos, os outros (o outro, no caso) é que saíram. Mas não sem antes fazer a nhaca do ano – século, milênio – e deixar os remanescentes juntando os caquinhos. Tudo regado a mentiras, traições & ambição, no melhor estilo telecine action possível. Sobreviveremos, como de fato já estamos sobrevivendo, mas a tranco foi grande.
Ansiolíticos, vejam vocês. Só eles salvam.
Daí que tomei vergonha na cara e fui numa doutora endócrino pras gorduras todas que só se acumulam. E descobri que funciono ainda pior sob pressão, que além de não emagrecer, eis que chegou com tudo quase um quilo em um mês. Bem no mês do ‘tratamento’, veja. Um chuchuzinho.
E é claro que as boas, boníssimas, coisas de la vie estavam sempre lá, na alegria e na tristeza.
Um vinhozinho com os amigos no domingo à noite em véspera de semana pesada; um vinhozinho que se multiplica em quatro como que num passe de mágica nesta mesma noite de domingo véspera de semana pesada; semana pesada que demooooora pra passar, só pensando no próximo vinhozinho; chopps e mais chopps tomados antes, depois e nos intervalos das peças do festival; mesas de bar cheias de lembranças e histórias; pedir Freedom e ainda For All no botequinho, o não é pra todo mundo (pra não exagerar na piada interna, foram os dois pratos pedidos na noite, que coincidentemente deu nessa combinação poética que só. agora alie isso a quatorze cervezitas e se tem um discurso sobre as nuances da liberdade no mundo desde a era mesozóica até a contemporaneidade).
E ir vendo né, como vão e voltam e abrem e fecham e puxam e esticam e a vida acaba rumando pro seu curso à normalidade, e que a normalidade não é esse monstro de tédio, não, muito pelo contrário.
Ta aí pra quem puder ver, ou quiser.
Ou são os ansiolíticos, vá saber ;)
Postado por CAROLINA em 8:41 PM 3 comentários
30 de março de 2008
O Amor
(Vladimir Maiacovski)
"...Ressuscita-me
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
Ressuscita-me
lutando contra as misérias do quotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
quero acabar de viver o que me cabe
minha vida
para que não mais existam amores servis
..."
Postado por MARIANA em 8:55 PM 0 comentários
Por detrás de todo esse silêncio, a vida moveu-se como nunca.
E foi nova e diferente até onde pode ser, mas tem sempre um ponto que não se ultrapassa e a partir do qual a vida volta a ser aquilo que sempre foi até aqui.
E foi rápido e fulminante.
Estamos em casa novamente.
"Sonho, visão ou poesia
O menino me aparecia
Trazendo sobre seus ombros
Uma estrada
O menino era alegria
E a estrada não lhe pesava
Sonho, lucidez ou fantasia
Eu tinha diante dos olhos e da mente
O caminho da vida.”
Milton Nascimento.
Postado por MARIANA em 8:18 PM 2 comentários
Lima.
Chegar ao nível do mar depois de tantos dias nas alturas não me fez bem, nem um pouco. Que gostei demais das montanhas, do ar rarefeito (cof!) e até da visão desfocada das coisas que as altas altitudes proporcionam.
Em Lima dava pra enxergar melhor as formas e as cores, mesmo com toda a insistente neblina que turvava a vista da praia durante todo o dia. Assim sendo, dava para enxergar também as sobrancelhas crescidas, os cabelos queimados pelo sol, a pele escurecida, seca e descascada e os pêlos todos que cresceram sem serem percebidos até então.
Antes de bater perna pelas ruas, iniciemos a depilação então, ora pois.
O bairro charmoso dos bem-nascidos que acordam com o mar na janela me lembrou o Rio. Já as avenidas largas que percorrem Miraflores, os prédios modernosos e a rica rua dos cassinos remeteram-me à pomposa Avenida Paulista. Mas aí caminhei pelo centro histórico, pelas plazas e pela rua só dos pedestres e antecipei lembranças da própria terrinha...tudo era muito parecido com Curitiba.
Mas tinha calor, o que ficou definitivamente marcado na memória quando ao caminhar pelas ruas à noite, seguindo a música e o movimento de pessoas que se aglomeravam numa praça, encontramos sem saber e sem esperar, uma Peña, festa típica em que as pessoas dançam ao som da música também típica tocada por uma pequena orquestra em plena praça, como um anfiteatro ao ar livre.
Postado por MARIANA em 6:35 PM 1 comentários
6 de março de 2008
24 de fevereiro de 2008

Texto de Mari Sanchez, 2005.
Postado por MARIANA em 11:36 PM 0 comentários
Cusco
*Suspiro longo*
*Suspiro longuíssimo*
Amor sublime amoRR.
Sobre Cusco, desde sempre, só ouvi coisas boas e, ainda assim, não só consegui me surpreender positivamente como passei a fazer parte da massa de visitantes que sai por aí recomendando às pessoas de todo mundo que não passem a existência sem conhecer Cusco.
Cidadezinha européia, com direito a frio congelante, céu cinza e chuva, arquitetura antiqüíssima e cercada de História por todos os lados.
O guia do city tour que fizemos pela cidade bem lembrou de que Cusco é a cara bonita do Peru, atrás da qual fica bem escondida a sua pobreza. Este mesmo guia ao nos mostrar as ruínas incas em volta da cidade não deixava de destacar o quanto a dominação dos espanhóis aniquilou a cultura do seu povo em nome da religião católica, o que mais tarde foi ingenuamente e em vão justificado com um: “naquele momento, a religião não estava em boas mãos”. “Pero, la religion nunca está em buenas manos”, disse ele.
Nas cidades anteriores, a constante abordagem nas ruas e pontos turísticos de vendedores ambulantes e crianças oferecendo coisas não foi tão intensa e incômoda quanto em Cusco, onde é bem mais acentuada em razão do maior turismo, além da pobreza geral evidente. Onde quer que fôssemos surgia sempre uma leva de mulheres e crianças vestidas com roupas típicas vendendo bonequinhos, gorros, mantas, souvenirs, etc, etc, o que nos obrigava a repetir incessantemente “no, gracias”, “no, gracias”...
Porém, tática realmente eficiente, e sedutora na mesma medida, eram das crianças peruanas vestidas como bonecas que apareciam sorrindo e perguntando se não gostaríamos de sacar una foto, o que custava normalmente 2 soles.
City tour? No, gracias.
Passeio pelas Islas Flotantes? Já conoci.
Copacabana? Já fuimos.
La Paz? También.
Entonces, ...massage?
...
Chegou um momento em que não ter recebido pelas ruas a oferta da “massage” começou a gerar um tipo de mágoa x baixa estima.
Outro atrativo de Cusco é a noite. A boate sensação de Cusco, onde “ustede descobre que estás vivo”, o Mama África é um lugar de astral especialmente único, onde se fala todas as línguas e se encontra gente de todo o mundo e, também, onde a oferta é igualmente farta e, no caso, bem outra - se é que vocês me entendem.
Postado por MARIANA em 2:26 PM 1 comentários
9 de fevereiro de 2008
Espetáculo da vida, parte I:
Chuquito, localidade de Puno – Peru.
Chegamos em Chuquito de micro-ônibus junto com os nativos da região, depois de um tour que incluiu um trecho de bicicleta-táxi e outro de moto- táxi. Tudo muito integrativo, digamos.
Devíamos ser os únicos turistas no lugar, já que é uma festa típica da região que acontece no primeiro dia do ano. Cheguei a sentir um certo constrangimento em não estar vestida de saia rodada, xale nas costas e com o chapeuzinho de chola na cabeça.
Na nossa concepção, é um tipo de carnaval, em que várias bandas, cada uma de uma cor, instaladas numa arquibancada ao ar livre, tocam cada uma a sua música, uma do lado da outra, o que resulta numa grande balbúrdia musical. Abaixo, ficam os integrantes de cada 'escola', fantasiados, dançando ciranda e tomando todas. Aliás, todos, sem qualquer distinção de sexo ou idade, bebem todas - outra coisa que me fez associar a festa ao nosso carnaval.
Junto à festa existia uma feira, onde se vendiam os favoritos pollo frito e chorizo, dentre outras comidas típicas.
Ao final, é feita a premiação da melhor banda.
Chances como esta, de conhecer algo que acontece num lugar cuja existência até então era de todo desconhecida e que, por um lance de sorte, estamos presentes no momento em que acontece - o que ocorre uma única vez no ano -, algo tão característico, tão próprio, tão cheio de beleza, são coisas pelas quais a gente se sente alguém realmente privilegiado na vida.
Postado por MARIANA em 12:53 PM 2 comentários
8 de fevereiro de 2008
Daí que necessito desta outra pausa, nem pra falar do carnaval, já que estranhamente a pessoa escreve um post sobre o seu ano novo quando estamos de volta do carnaval - que foi bom, muito bom, na medida do possível quando se trata de carnaval, o feriado com o poder sem igual de tornar todos os lugares terríveis – mas para espalhar a boa nova de que a Cris está com o seu blog novamente de portas abertas às pessoas de toda a parte. Talvez ela me odeie por esta publicidade, mas é que a emoçã é incontida.
Perdoa!
"É como quando o seu namorado diz que vai voltar pra ex, entende? Aquela que quase destruiu a vida dele. Que acabou o namoro e ele perdeu 20 quilos e ficou desnutrido, deprimido e descrente do amoRRR. Aí você tava passando ali com a sua carrocinha, né, porque é isso que você faz vida afora, e recolheu o sem-amor. Deu casa, comida, roupa lavada, amor, carinho, compreensão, all that etc bullshit, belo dia ele chega e te diz que a ex quer voltar. Você tinha dado um voto de confiança à humanidade, abriu sua casa, sua conchinha secreta que te protege do mundo, abriu seu coração, abriu sua vida pra pessoa entrar, enfim.
E a pessoa vai embora sem mais.
E você fica na merda."
Por essas e outras que necessito.
\o/
Postado por MARIANA em 10:09 AM 0 comentários
7 de fevereiro de 2008
O Ano Novo passamos debaixo de muita chuva e muito frio em Copacabana, na beira do Lago Titicaca. Copacabana tinha rendido muitas expectativas por conta especialmente da Isla del Sol, lugar pelo qual me encantei desde a primeira descrição.
O passeio de um dia pela Ilha possibilita conhecer a parte norte, mais distante, onde estão as paisagens mais lindas, misturando o terreno árido e montanhoso e a água cristalina do lago, as poucas casas bastante rústicas e as mulheres em seus trajes típicos vendendo tecidos e artesanatos pelo caminho.
Se, por um lado, foram fascinantes a paisagem, a oportunidade de conhecer o lago mais alto do mundo e de confirmar as informações de ser Copacabana uma cidade povoada de gringos e jovens hippies, cheia de mercearias e lugarezinhos simpáticos, por outro lado, o mau atendimento prestado aos turistas, a precariedade dos serviços nas hospedagens, o horário precoce de fechamento dos restaurantes e bares e a escassez de comida e água (ambas acabavam depois das 22 horas) causaram uma certa decepção, inevitável até mesmo aos viajantes mais simplórios e pouco exigentes.
A esta altura, continuava eu resistindo bem aos sintomas do mal de altitude, mas, em compensação, meu intestino não funcionava, meu rosto descascava em partes e nascia uma íngua no meu pescoço. No entanto, tudo estava muito bem. Nada poderia afetar afinal alguém abençoada pelo espírito inca em ritual praticamente sacro-santo acontecido às margens do Titicaca, com direito a banho de espumante boliviano no momento dA Virada.
Postado por MARIANA em 11:04 PM 0 comentários
1 de fevereiro de 2008
Por conta dos mais de 3.800 metros de altitude que nos aguardavam em La Paz, metade dos viajantes ficaram baqueados já no aeroporto. Falta de ar, dores de cabeça, sensação de cansaço, para alguns, diarréia e náuseas.
A outra metade permaneceu firme e forte, só sucumbindo à cerveja quente e espumante que era servida nos lugares. Eu mesma senti nada não. Aliás, acabei constatando que nasci mesmo foi pra viver nas alturas que, puxando pela memória, desde criança, sintomas de mal estar físico e ‘baixura’ sempre senti foi na praia, no nível 0.
Nada, entretanto, que uns dias de adaptação, chá e folhas de coca não pudessem resolver. E dá-lhe um e outro. Coisas estas com as quais não me adaptei já que na bem dizer única vez em que tomei o chá botando fé de que ficaria preparadíssima pra subir os 100m que faltavam até o Pico de 5.400m de altitude do Chacaltaya, consegui somente uma taquicardia e precipitações gastro-intestinais. Esta parte eu não precisava contar, é verdade, mas sinto uma necessidade de mim para migo mesma de justificar o fato de não ter chegado aos 5.400m, mas somente aos 5.350.
O Chacaltaya, por sinal, foi uma das maiores atrações de La Paz, passeio espetacular, com direito a no mesmo dia calor & frio em seus extremos, pânico tanto no caminho, dentro da van, da onde não se enxergava o chão da estrada, mas somente o precipício ao lado, quanto na caminhada até o Pico, com os raios e trovões que não cessavam. E a neve que presenteou os tupiniquins tropicalientes em pleno janeiro.
La Paz é um prato cheio. A cidade mais particularmente chocante e espantosa de todo o caminho. Lembrou-me “Blade Runner” ou o recente “Filhos da Esperança”. Quando o mundo estiver perto do fim, todas as cidades parecerão La Paz. E, paradoxalmente, em La Paz há muita vida. Vida que se mantém a despeito de todas as condições desumanas, a completa ausência de preocupação ecológica, o lixo, a miséria, o caos.

Nenhuma palavra melhor define La Paz do que caos, o que se evidencia em primeiro lugar, e de forma bastante impactante, no trânsito, que funciona na base da buzina, com os carros sucateados se atravessando uns sobre os outros, e também sobre os pedestres, estes um mero detalhe no meio de tudo; na imensidão de casas sem pintura e sem reboco amontoadas encima das montanhas e no povo que parece estar todo vendendo pequenezas no meio das ruas. Não só pequenezas, mas também laranja descascada, "chorizo", “pollo” frito, carne crua, pães em pilhas e pipocas.


Em La Paz conhecemos pessoas ótimas, dentre eles os mineiros Mariana, Isabela e o João, mais conhecido como “O Paceña”, já que após as explanações dos guias, quando seria normalmente o momento das dúvidas e perguntas dos turistas, ele levantava o braço e perguntava se lá onde íamos tinha paceña, uma cerveza boliviana, pra vender.
Postado por MARIANA em 3:50 PM 0 comentários
29 de janeiro de 2008
Charlie Gil (lê-se Guil), taxista em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.
Segundo ele, primo do apresentador Raul Gil (o pai dele seria primo em primeiro grau).
Identificado brasileiro ao dizer: “si, si, o aeropuerto és meio longinho”.
Entre um ponto e outro da cidade que nos apresentou, ia contando piadas machistas, cortando os carros no trânsito, subindo as calçadas nas curvas, acelerando nas rodovias, até quase nos matar ao se virar todo para trás, pra fazer funcionar o vidro elétrico da janela de um carro cujos bancos eram no chão, enquanto mantinha o pé fundo no acelerador.
Pelo que foi possível perceber, fora do carro representava tanto perigo quanto dentro, já que ao avistar suposto pivete que supostamente importunaria os seus clientes, ameaçou bater nele com a garrafa de cerveja, a mesma que bebíamos em confraternização, comendo comidinhas típicas.
Na despedida, cobrou o dobro do combinado pela corrida.
Primeira grande lição:
A relação aparentemente amistosa firmada com pessoas a quem você está pagando não deve ser considerada amistosa de fato. O “Fator Gente Boa” estará neutralizado sempre que:
a) vc estiver pagando
b) vc for estrangeiro
c) vc for turista
d) todas as alternativas acima existirem conjuntamente.
Postado por MARIANA em 8:32 PM 3 comentários
Comecemos por partes...
Na tentativa de não esquecer de nenhum dos causos, de nenhuma das impressões e, principalmente, de nenhuma das pessoas que cruzaram o nosso caminho na viagem.
Mãs, tenhais paciência com esta que vos fala, que a pressa sempre foi inimiga da perfeição. Neste caso, a pressa significaria a morte matada dos fatos mais pitorescos e das sensações ainda a depurar.
Entonces, vamos lá:
De como é linda Corumbá,
onde chegamos depois de viajar a noite toda no melhor ônibus de todos os tempos, cheio de funcionalidades, com um espaço gigantesco entre as poltronas, que já eram mais largas que o normal, encosto para as pernas e, naturalmente, ar condicionado. Tudo isso me causando efusiva alegria.
Passávamos, sem saber, pelo primeiro extremo climático da viagem, que começou na sala vip da viação Andorinha, onde esperamos o ônibus por horas, assistindo ao especial do Rei na TV, abafados num calor que o mais potente ar condicionado não venceria, e terminou em tempo recorde, dando vez logo em seguida ao extremo climático inverso.
E a cidade que era para ser somente nuvem passageira e onde as circunstâncias felizmente nos obrigaram a ficar além do planejado, acabou sendo a primeira e grande boa surpresa, com os seus sobrados antigos de muros baixos, portas estreitas e mosaicos nas janelas, as árvores da rua cheias das luzes de Natal, o calor inacreditável, o nosso albergue chiquérrimo com piscina de água naturalmente morna.
Do passeio de chalana pelo Rio Paraguai, que nos proporcionou as primeiras fotos/cartão postal da viagem, o primeiro jacaré visto de perto e os bichos todos do Pantanal.
Da peixaria do Lulu e do primeiro peixe de rio; do Ney, taxista paranaense que salvou a viagem da Sio; das primeiras amizades; do primeiro desacerto.
O contraste estampado já na porta de entrada para os ‘bovilianos’ e a primeira sensação de que como o Brasil não há.
E eu que não tenho grandes simpatias por lugares quentes, me rendi ao calor de 40º à sombra e à luz do dia que faz os olhos doerem, e nem liguei pra o que não deu certo porque na verdade estava começando do modo mais acertado.
Postado por MARIANA em 6:43 PM 2 comentários
23 de janeiro de 2008
Xente xente...uma pausa para o seguinte comunicado:
De nossa querida amiga Sina (pseudônimo), notícias - acompanhadas de notas explicativas - sobre a possibilidade de celebrarmos um contrato de locação de imóvel de veraneio no próximo feriado:
"Pessoas,
Estou verificando a possibilidade de uma casa em Ingleses aproximadamente 700m da praia com 3 dormitórios pelo valor de R$250,00 por dia - R$1250,00 o período de carnaval (9 pessoas = R$ 139,00 por pessoa). Mas calma!!! Essa casa é particular, sendo assim não tem no site pra olhar. Pedi que fossem tiradas fotos e enviadas para mim. Estou aguardando o envio das mesmas.
Caso a casa seja horrível (Vamos torcer para que não!!), o Sr. Amaro informou que está sem apartamentos de 3 dormitórios para alugar. Ele ofereceu um de 2 dormitórios com 2 camas de casal e 1 de solteiro para 9 pessoas!! Achei apertado demais...colocar 9 pessoas onde deveriam ficar 5 é pedir demais!! Nesse caso a opção seria alugarmos 2 apartamentos de 2 dormitórios caso a casa não se concretize. Nesse caso cada apartamento ficaria R$1000,00 pelo período. (9 pessoas = R$222,22 por pessoa). Parece que esses apartamentos ficam na mesma região que a casa em questão.
É claro que deve ter ainda a taxa de limpeza para ambos os casos.
Vamos torcer para que a casa seja excelente, e não vamos nos decepcionar caso não seja e tenhamos que alugar os 2 apartartamentos. Lembrem-se que inicialmente estávamos prevendo 5 pessoas em 1 apartamento... o que seria R$ 200,00 por pessoa e estávamos achando ótimo. Agora poderá ficar só R$22,22 mais caro. Ou ainda pode ir mais alguém e ficar do mesmo jeito de antes só q com muito mais gente.
Beijos."
Tô boba.
Postado por MARIANA em 2:43 PM 2 comentários
21 de janeiro de 2008
O fim é belo e ...certo
Não que se queira falar de fins em período de inícios, de (re)começos e de grandes esperanças nascidas ou reforçadas pelo révelon. Mas o meu primeiro fim aconteceu já neste primeiro mês de 2008, com o fim da grande viagem aventureira que marcará os “inte”. Para os “inta” pensarei em algo tão ou mais grandioso. Porém, enquanto o seu lobo não vem, fico cá revirando as fotos, contando e lembrando causos, rindo sozinha e compartilhando as alegrias e surpresas tidas nesta viagem, absolutamente anestesiada pela realização de um plano tão aguardado e desejado.
Decretei meu período sabático de processamento das informações até que enfim estejam ordenadas as idéias. Assim, faço de conta que tamanho luxo é possível e que não há o trabalho, as obrigações, o retorno da rotina e o início brusco da engrenagem. E nem a curiosidade de Kerol e a minha auto-cobrança de colocar todas as sensações no papel.
Mas, antes disso tudo:
Postado por MARIANA em 5:26 PM 2 comentários
18 de janeiro de 2008
Fora de hora.
Daí que antes que mis amigas e compañeras queridas tragam as mileuma novidades da viagem mais super legal do século, cheias de impressões, ilustrações e comentários, deixa eu aqui postar um post (ouquei…) que já estava meio caminho pronto há duzentos e vinte e oito anos. Fora de hora, totalmente.
Mãs.
Em algum momento de novembro, fui pra Foz. Já tinha ido há dezenove alguns anos, mas realmente não me lembrava da grandeza da coisa toda. Que é grande. Deveras. E, de verdade, de tirar o fôlego. Anda-se, anda-se, anda-se, em todos os passeios e caminhos.
Com a parada anterior providencial no Paragua velho de guerra, para comprar câmera pequenina que só, então agüentem.
Águas por todos os lados, como não poderia deixar de ser.
E o Parque das Aves, que em princípio chega a dar uma agonia sem fim de ver pássaros grande e pequenos engaiolados, mas daí você chega nos viveiros mais ou menos abertos, e os animales todos passando bem ao seu lado, e tudo fica lindo.

Inclusive o pavão, que é um bicho grande que só. Muitos medos na hora que essa enormidade passa do seu (meu) lado, corajosa que sou com as cousas da natureza. Mas ele se abriu todo, vejam, e foi o melhor de tudo. Ainda mais porque com a devida distância de mi persona.
Cuja foto ficarei devendo, que achei que estava por aqui pelo escritório, mas não não.
Mas vai outro tucano então, bem lindo e desfocado, pra compensar.
Então ta, devidamente ilustrado tudo, vou fechar tudo mais cedo e vou ali na praia e já volto. Inté mais.
Postado por CAROLINA em 3:43 PM 3 comentários
4 de janeiro de 2008
As salas de espera da vida acabam trazendo gratas leituras de quando em vez, como diria minha mãe.
Essa Veja rolou por todos os lados lá em casa, e só lembrei por causa da capa, do leão que teria virado papai noel com o fim da CPMF e coisa e tal.
Mãs, texto bom, muito bom. Ainda mais para os começos de ano e suas esperanças todas tão próprias e salvadoras.
Da Lya, a Luft.
As coisas boas
Recebo e-mail de um jovem de 16 anos reclamando, num texto lúcido e bem escrito, de que sou pessimista. Pois escrevi na última coluna que "ninguém faz nada", quando, segundo ele, eu deveria dar uma mensagem esperançosa a quem quer "mudar o mundo". De alguma forma, isso me comoveu. Quase todos queremos melhorar o mundo na juventude, e é bom querer não ficar rançoso, amargo ou queixoso na idade adulta. Pior ainda, chato na velhice. Sou esperançosa e otimista, por isso mesmo não posso escrever apenas sobre coisas amenas, e infelizmente não tenho mensagem nem receita para o mundo melhorar. Pois eu sou apenas mais uma pessoa que de um lado se alegra, de outro se aflige. O número espantoso de leitores desta revista me dá uma sensação de comprometimento com a não-alienação. Escondendo a realidade é que não se vai poder mudar ou melhorar coisa nenhuma.
Acho nosso momento tristíssimo. Até jornais estrangeiros importantes, que em geral não nos dão bola, registram os fatos que andam ocorrendo no Senado e em outras instâncias solenes como "coroamento da corrupção brasileira". A impressão que se tem, que eu tenho, é que ninguém anda fazendo grande coisa, ou pouca gente faz alguma coisa para melhorar. Escrever que "ninguém faz nada" é uma hipérbole literária, é como dizer, sem realmente querer dizer isso, "morri de ódio". Acho, sim, que muitos responsáveis não fazem nada, ou fazem o mal: desviam ou aplicam de maneira irresponsável dinheiro destinado aos pobres, desprezam a educação e a cultura, cospem na saúde, enganam uma montanha (não, um verdadeiro Everest...) de gente que merecia coisa melhor.
Mas também vejo muita gente fazendo muita coisa positiva, gente querendo acertar, jovens ou velhos com esperança, pessoas espalhando o bem. Cada vez que um de nós é leal com alguém, faz uma coisa boa; cada vez que respeitamos o outro com suas diferenças, seus dramas e necessidades, fazemos uma coisa boa. Cada vez que somos decentes em vez de perversos, cada vez que cultivamos compreensão e respeito em lugar de rancor, cada vez que somos carinhosos, alegres, solidários, fazemos coisas muito boas.
Cada vez que um jovem estuda, trabalha, e se constrói como pessoa produtiva e positiva, faz algo muito bom. Cada vez que um pai presta atenção no filho, cada vez que uma mãe é dedicada sem depois cobrar isso, fazem uma coisa boa. Cada vez que alguém fuma seu último cigarro, bebe seu copo derradeiro, cheira sua ultimíssima carreirinha e dá o primeiro passo numa nova vida, faz uma coisa maravilhosa. Sempre que alguém recusa uma baforada de maconha, negando-se a homenagear os traficantes que amanhã vão matar seu filho ou trucidar seu amigo, está fazendo uma coisa muito boa.
Quando olhamos uma árvore na beira da estrada, a luz do sol num gramado, a chuva na vidraça, a criança observando um besouro, um bebê dormindo, um velho rodeado pelos filhos, estamos fazendo uma coisa muito boa; cada professor mal pago que atende com dedicação seus alunos, cada médico de uma saúde pública apodrecida que cuida com humanidade de seus doentes faz uma coisa muito boa. Sempre que uma mulher aproxima os filhos do pai mostrando que ele é um ser humano, está fazendo uma coisa boa; cada filho que abraça o pai que já não o pode sustentar faz uma coisa boa. O político que rema contra a correnteza permanecendo honrado faz uma coisa muito boa.
Fazem-se muitas coisas boas neste mundo, e por isso ainda não nos matamos. Por isso ainda estamos abertos ao belo, ao bom e ao outro. Por isso vale a pena viver. Mas, sinto muito, o ser humano é um animal predador: o desejo de destruir e arruinar coexiste em todos nós com a bondade, a decência, a dignidade. Que fazer? Somos assim. Se pudermos estar do lado do bem, querendo melhorar o mundo, viva! As coisas não estarão perdidas, a amargura não vai nos dominar, a sombra acabará fugindo da claridade, e continuaremos sendo, mais que feras, humanos. Mesmo quando alguém escreve sobre as realidades menos bonitas, elas não precisam prevalecer. E muita gente continuará fazendo muita coisa boa, aos 16 anos, aos 68 ou aos 86.
Postado por CAROLINA em 4:33 PM 1 comentários
1 de janeiro de 2008
Inícios.
O que significa que, muito em breve, o blog estará cheio de novidades mis e atualizações constantes, que imagino o que as duas não estão aprontando pela terra de nuestros hermanos. A história será re-escrita, aguardem.
Mãs. O facto é que, cá às voltas com sogra e sogro e cunhada e cunhado, acabei falhando miseravelmente em minha incumbência de mensagem de final de ano, ó vida.
Daí que, por conta disso, cá estou para ao menos deixar um alou de COMEÇO de ano, o que, vejam, é muito mais super legal e oportuno. Tudo friamente premeditado, na verdade.
E nada melhor do que, depois de vinte e cinco anos e meio de blog, fazer as devidas apresentações para o mundo virtual e real, desta vez devidamente ilustradas. Mesmo que sem autorização, que afinal eu estou aqui sozinhabandonada enquanto vocês desbravam terras desconhecidas por triiiinta dias! Mas EU tenho internet! Hahahaha! A vingança do pipoqueiro.
Brincadeira. Fé, que ninguém se zangará.
Prazer: Ferdi Maria, Merilú e yo.
E, é claro, todos os melhores desejos de um ano realmente alegre e contente, como não poderia deixar de ser, com ótemas experiências para todos, e com contentamentos tão grandes quanto ao de Merilú ali em cima, depois de receber presentes e mais presentes. Uma boa analogia esta, até. Agarrem os seus (presentes) com toda a empolgação e não soltem nunca mais, e que os frutos sejam sempre os melhores possíveis.
Postado por CAROLINA em 6:47 PM 3 comentários
