24 de fevereiro de 2008

Machu Picchu vista de Wayna Picchu

"E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!"
Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços

Andei por uma cidade invisível, encoberta pelas nuvens andinas 8 horas da manhã; andei por uma cidade de pedras e degraus, descidas, subidas e fôlegos profundos; andei por uma cidade sem igrejas, a única livre do pecado dos deuses e dos homens, que escondida entre a constante neblina passou sem ser notada pelo desatento conquistador branco; andei por uma cidade de orquídeas e lhamas, uma cidade sagrada onde turistas se acotovelavam entre ridículos chapéus e capas de chuva coloridas; andei por uma cidade monocromática assustada com flashes de câmeras japonesas, uma cidade de templos e lendas misteriosas, de ruelas estreitas e corredores esquecidos; andei por uma cidade fantasma, uma vila em ruínas, até que finalmente deitei na grama e ali fiquei, enquanto uma lhama amiga comia raminhos verdes nos meus pés, e olhando o céu entendi como rapidamente um carneiro se converte em gato que depois em caranguejo até se dispersar no vento. E então voltei e mais uma vez andei. Andei olhando a silhueta dos morros onde um homem de nariz grande descansava sorrindo; andei com os vaga-lumes na noite descendo um caminho recortado no meio da selva peruana, cutucando o chão com um pedaço de pau como um cego, vendo vultos em formas de monstros como uma criança que inventa imagens no quarto escuro.
Quem caminha por Machupicchu, cidade encontrada, sente a urgência de ver, como se fosse preciso tirar o atraso e a poeira dessa cidade tantos anos perdida. Por isso andei esperando que brotasse na cara uma dúzia mais de olhos. Inutilmente, é claro. Os olhos, nestes casos, são grandes atrapalhos, já que Machupicchu melhor se mira com mãos, pés, ouvidos, narizes e uma alma não tão pequena.

Texto de Mari Sanchez, 2005.

Cusco

*Suspiro longo*



*Suspiro longuíssimo*


Amor sublime amoRR.

Sobre Cusco, desde sempre, só ouvi coisas boas e, ainda assim, não só consegui me surpreender positivamente como passei a fazer parte da massa de visitantes que sai por aí recomendando às pessoas de todo mundo que não passem a existência sem conhecer Cusco.

Cidadezinha européia, com direito a frio congelante, céu cinza e chuva, arquitetura antiqüíssima e cercada de História por todos os lados.



Com a grande e calorosa diferença de estar na América Latina, onde se podem reconhecer todas as nossas características sociais e humanas. Detalhe este que pode ser tão bom quanto ruim.

O guia do city tour que fizemos pela cidade bem lembrou de que Cusco é a cara bonita do Peru, atrás da qual fica bem escondida a sua pobreza. Este mesmo guia ao nos mostrar as ruínas incas em volta da cidade não deixava de destacar o quanto a dominação dos espanhóis aniquilou a cultura do seu povo em nome da religião católica, o que mais tarde foi ingenuamente e em vão justificado com um: “naquele momento, a religião não estava em boas mãos”. “Pero, la religion nunca está em buenas manos”, disse ele.

Nas cidades anteriores, a constante abordagem nas ruas e pontos turísticos de vendedores ambulantes e crianças oferecendo coisas não foi tão intensa e incômoda quanto em Cusco, onde é bem mais acentuada em razão do maior turismo, além da pobreza geral evidente. Onde quer que fôssemos surgia sempre uma leva de mulheres e crianças vestidas com roupas típicas vendendo bonequinhos, gorros, mantas, souvenirs, etc, etc, o que nos obrigava a repetir incessantemente “no, gracias”, “no, gracias”...

Porém, tática realmente eficiente, e sedutora na mesma medida, eram das crianças peruanas vestidas como bonecas que apareciam sorrindo e perguntando se não gostaríamos de sacar una foto, o que custava normalmente 2 soles.

Teve uma que carregava uma alpaca bebê enrolada numa manta colorida que elas usualmente levam nas costas. Não houve como não sucumbir...

Algumas abordagens, no entanto, eram espirituosas:

City tour? No, gracias.

Passeio pelas Islas Flotantes? Já conoci.

Copacabana? Já fuimos.

La Paz? También.

Entonces, ...massage?

...

Chegou um momento em que não ter recebido pelas ruas a oferta da “massage” começou a gerar um tipo de mágoa x baixa estima.

Outro atrativo de Cusco é a noite. A boate sensação de Cusco, onde “ustede descobre que estás vivo”, o Mama África é um lugar de astral especialmente único, onde se fala todas as línguas e se encontra gente de todo o mundo e, também, onde a oferta é igualmente farta e, no caso, bem outra - se é que vocês me entendem.





Ir embora de Cusco é de cortar o coração.

9 de fevereiro de 2008

Espetáculo da vida, parte I:

Chuquito, localidade de Puno – Peru.

Chegamos em Chuquito de micro-ônibus junto com os nativos da região, depois de um tour que incluiu um trecho de bicicleta-táxi e outro de moto- táxi. Tudo muito integrativo, digamos.

Devíamos ser os únicos turistas no lugar, já que é uma festa típica da região que acontece no primeiro dia do ano. Cheguei a sentir um certo constrangimento em não estar vestida de saia rodada, xale nas costas e com o chapeuzinho de chola na cabeça.

Na nossa concepção, é um tipo de carnaval, em que várias bandas, cada uma de uma cor, instaladas numa arquibancada ao ar livre, tocam cada uma a sua música, uma do lado da outra, o que resulta numa grande balbúrdia musical. Abaixo, ficam os integrantes de cada 'escola', fantasiados, dançando ciranda e tomando todas. Aliás, todos, sem qualquer distinção de sexo ou idade, bebem todas - outra coisa que me fez associar a festa ao nosso carnaval.

Junto à festa existia uma feira, onde se vendiam os favoritos pollo frito e chorizo, dentre outras comidas típicas.

Ao final, é feita a premiação da melhor banda.

Chances como esta, de conhecer algo que acontece num lugar cuja existência até então era de todo desconhecida e que, por um lance de sorte, estamos presentes no momento em que acontece - o que ocorre uma única vez no ano -, algo tão característico, tão próprio, tão cheio de beleza, são coisas pelas quais a gente se sente alguém realmente privilegiado na vida.

8 de fevereiro de 2008

Daí que necessito desta outra pausa, nem pra falar do carnaval, já que estranhamente a pessoa escreve um post sobre o seu ano novo quando estamos de volta do carnaval - que foi bom, muito bom, na medida do possível quando se trata de carnaval, o feriado com o poder sem igual de tornar todos os lugares terríveis – mas para espalhar a boa nova de que a Cris está com o seu blog novamente de portas abertas às pessoas de toda a parte. Talvez ela me odeie por esta publicidade, mas é que a emoçã é incontida.

Perdoa!

"É como quando o seu namorado diz que vai voltar pra ex, entende? Aquela que quase destruiu a vida dele. Que acabou o namoro e ele perdeu 20 quilos e ficou desnutrido, deprimido e descrente do amoRRR. Aí você tava passando ali com a sua carrocinha, né, porque é isso que você faz vida afora, e recolheu o sem-amor. Deu casa, comida, roupa lavada, amor, carinho, compreensão, all that etc bullshit, belo dia ele chega e te diz que a ex quer voltar. Você tinha dado um voto de confiança à humanidade, abriu sua casa, sua conchinha secreta que te protege do mundo, abriu seu coração, abriu sua vida pra pessoa entrar, enfim.

E a pessoa vai embora sem mais.

E você fica na merda."

Por essas e outras que necessito.

\o/

7 de fevereiro de 2008

O Ano Novo passamos debaixo de muita chuva e muito frio em Copacabana, na beira do Lago Titicaca.

Copacabana tinha rendido muitas expectativas por conta especialmente da Isla del Sol, lugar pelo qual me encantei desde a primeira descrição.

O passeio de um dia pela Ilha possibilita conhecer a parte norte, mais distante, onde estão as paisagens mais lindas, misturando o terreno árido e montanhoso e a água cristalina do lago, as poucas casas bastante rústicas e as mulheres em seus trajes típicos vendendo tecidos e artesanatos pelo caminho.



Lá conhecemos o Pedro, carioca queridíssimo que viajava sozinho desde a Venezuela, descendo o continente, e seu amigo Uri, um israelense de 71 anos que encarava os passeios com total disposição e jovialidade carregando por toda a parte a sua mochila deveras grande e pesada.

Se, por um lado, foram fascinantes a paisagem, a oportunidade de conhecer o lago mais alto do mundo e de confirmar as informações de ser Copacabana uma cidade povoada de gringos e jovens hippies, cheia de mercearias e lugarezinhos simpáticos, por outro lado, o mau atendimento prestado aos turistas, a precariedade dos serviços nas hospedagens, o horário precoce de fechamento dos restaurantes e bares e a escassez de comida e água (ambas acabavam depois das 22 horas) causaram uma certa decepção, inevitável até mesmo aos viajantes mais simplórios e pouco exigentes.

A esta altura, continuava eu resistindo bem aos sintomas do mal de altitude, mas, em compensação, meu intestino não funcionava, meu rosto descascava em partes e nascia uma íngua no meu pescoço. No entanto, tudo estava muito bem. Nada poderia afetar afinal alguém abençoada pelo espírito inca em ritual praticamente sacro-santo acontecido às margens do Titicaca, com direito a banho de espumante boliviano no momento dA Virada.

A benção incluía um ai-ái-ah ao final da oração, o que imagino eu servia para melhor emanar as energias positivas que hão de vigorar por todo o ano!

Ai-ái-ah para ustedes tambien!!

1 de fevereiro de 2008

Por conta dos mais de 3.800 metros de altitude que nos aguardavam em La Paz, metade dos viajantes ficaram baqueados já no aeroporto. Falta de ar, dores de cabeça, sensação de cansaço, para alguns, diarréia e náuseas.

A outra metade permaneceu firme e forte, só sucumbindo à cerveja quente e espumante que era servida nos lugares. Eu mesma senti nada não. Aliás, acabei constatando que nasci mesmo foi pra viver nas alturas que, puxando pela memória, desde criança, sintomas de mal estar físico e ‘baixura’ sempre senti foi na praia, no nível 0.

Nada, entretanto, que uns dias de adaptação, chá e folhas de coca não pudessem resolver. E dá-lhe um e outro. Coisas estas com as quais não me adaptei já que na bem dizer única vez em que tomei o chá botando fé de que ficaria preparadíssima pra subir os 100m que faltavam até o Pico de 5.400m de altitude do Chacaltaya, consegui somente uma taquicardia e precipitações gastro-intestinais. Esta parte eu não precisava contar, é verdade, mas sinto uma necessidade de mim para migo mesma de justificar o fato de não ter chegado aos 5.400m, mas somente aos 5.350.

O Chacaltaya, por sinal, foi uma das maiores atrações de La Paz, passeio espetacular, com direito a no mesmo dia calor & frio em seus extremos, pânico tanto no caminho, dentro da van, da onde não se enxergava o chão da estrada, mas somente o precipício ao lado, quanto na caminhada até o Pico, com os raios e trovões que não cessavam. E a neve que presenteou os tupiniquins tropicalientes em pleno janeiro.




Aí me pergunto, e o gosto pela aventura e perigo, surgiu quando mesmo?

La Paz é um prato cheio. A cidade mais particularmente chocante e espantosa de todo o caminho. Lembrou-me “Blade Runner” ou o recente “Filhos da Esperança”. Quando o mundo estiver perto do fim, todas as cidades parecerão La Paz. E, paradoxalmente, em La Paz há muita vida. Vida que se mantém a despeito de todas as condições desumanas, a completa ausência de preocupação ecológica, o lixo, a miséria, o caos.



Nenhuma palavra melhor define La Paz do que caos, o que se evidencia em primeiro lugar, e de forma bastante impactante, no trânsito, que funciona na base da buzina, com os carros sucateados se atravessando uns sobre os outros, e também sobre os pedestres, estes um mero detalhe no meio de tudo; na imensidão de casas sem pintura e sem reboco amontoadas encima das montanhas e no povo que parece estar todo vendendo pequenezas no meio das ruas. Não só pequenezas, mas também laranja descascada, "chorizo", “pollo” frito, carne crua, pães em pilhas e pipocas.



Em La Paz conhecemos pessoas ótimas, dentre eles os mineiros Mariana, Isabela e o João, mais conhecido como “O Paceña”, já que após as explanações dos guias, quando seria normalmente o momento das dúvidas e perguntas dos turistas, ele levantava o braço e perguntava se lá onde íamos tinha paceña, uma cerveza boliviana, pra vender.
Descobri com eles e mais outro grupo de mineiros que andavam em sete meninos e uma única menina e que encontramos em todos os lugares por onde passamos, - a menina em todas as ocasiões abanando e sorrindo para nós como que pedindo desesperadamente por uma amizade feminina - que os mineiros são as pessoas mais amáveis, sociáveis e gentis de que já se ouviu falar. E eles ainda nos diziam com o jeitinho típico minêr: “acho tão lindo o sotaque ducêis”.

29 de janeiro de 2008

Charlie Gil (lê-se Guil), taxista em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.

Segundo ele, primo do apresentador Raul Gil (o pai dele seria primo em primeiro grau).

Identificado brasileiro ao dizer: “si, si, o aeropuerto és meio longinho”.

Entre um ponto e outro da cidade que nos apresentou, ia contando piadas machistas, cortando os carros no trânsito, subindo as calçadas nas curvas, acelerando nas rodovias, até quase nos matar ao se virar todo para trás, pra fazer funcionar o vidro elétrico da janela de um carro cujos bancos eram no chão, enquanto mantinha o pé fundo no acelerador.

Pelo que foi possível perceber, fora do carro representava tanto perigo quanto dentro, já que ao avistar suposto pivete que supostamente importunaria os seus clientes, ameaçou bater nele com a garrafa de cerveja, a mesma que bebíamos em confraternização, comendo comidinhas típicas.

Na despedida, cobrou o dobro do combinado pela corrida.

Primeira grande lição:

A relação aparentemente amistosa firmada com pessoas a quem você está pagando não deve ser considerada amistosa de fato. O “Fator Gente Boa” estará neutralizado sempre que:
a) vc estiver pagando
b) vc for estrangeiro
c) vc for turista
d) todas as alternativas acima existirem conjuntamente.

Comecemos por partes...

Na tentativa de não esquecer de nenhum dos causos, de nenhuma das impressões e, principalmente, de nenhuma das pessoas que cruzaram o nosso caminho na viagem.

Mãs, tenhais paciência com esta que vos fala, que a pressa sempre foi inimiga da perfeição. Neste caso, a pressa significaria a morte matada dos fatos mais pitorescos e das sensações ainda a depurar.

Entonces, vamos lá:

De como é linda Corumbá,

onde chegamos depois de viajar a noite toda no melhor ônibus de todos os tempos, cheio de funcionalidades, com um espaço gigantesco entre as poltronas, que já eram mais largas que o normal, encosto para as pernas e, naturalmente, ar condicionado. Tudo isso me causando efusiva alegria.

Passávamos, sem saber, pelo primeiro extremo climático da viagem, que começou na sala vip da viação Andorinha, onde esperamos o ônibus por horas, assistindo ao especial do Rei na TV, abafados num calor que o mais potente ar condicionado não venceria, e terminou em tempo recorde, dando vez logo em seguida ao extremo climático inverso.

E a cidade que era para ser somente nuvem passageira e onde as circunstâncias felizmente nos obrigaram a ficar além do planejado, acabou sendo a primeira e grande boa surpresa, com os seus sobrados antigos de muros baixos, portas estreitas e mosaicos nas janelas, as árvores da rua cheias das luzes de Natal, o calor inacreditável, o nosso albergue chiquérrimo com piscina de água naturalmente morna.

Do passeio de chalana pelo Rio Paraguai, que nos proporcionou as primeiras fotos/cartão postal da viagem, o primeiro jacaré visto de perto e os bichos todos do Pantanal.



Da peixaria do Lulu e do primeiro peixe de rio; do Ney, taxista paranaense que salvou a viagem da Sio; das primeiras amizades; do primeiro desacerto.

O contraste estampado já na porta de entrada para os ‘bovilianos’ e a primeira sensação de que como o Brasil não há.

E eu que não tenho grandes simpatias por lugares quentes, me rendi ao calor de 40º à sombra e à luz do dia que faz os olhos doerem, e nem liguei pra o que não deu certo porque na verdade estava começando do modo mais acertado.

23 de janeiro de 2008

Xente xente...uma pausa para o seguinte comunicado:

De nossa querida amiga Sina (pseudônimo), notícias - acompanhadas de notas explicativas - sobre a possibilidade de celebrarmos um contrato de locação de imóvel de veraneio no próximo feriado:

"Pessoas,

Estou verificando a possibilidade de uma casa em Ingleses aproximadamente 700m da praia com 3 dormitórios pelo valor de R$250,00 por dia - R$1250,00 o período de carnaval (9 pessoas = R$ 139,00 por pessoa). Mas calma!!! Essa casa é particular, sendo assim não tem no site pra olhar. Pedi que fossem tiradas fotos e enviadas para mim. Estou aguardando o envio das mesmas.

Caso a casa seja horrível (Vamos torcer para que não!!), o Sr. Amaro informou que está sem apartamentos de 3 dormitórios para alugar. Ele ofereceu um de 2 dormitórios com 2 camas de casal e 1 de solteiro para 9 pessoas!! Achei apertado demais...colocar 9 pessoas onde deveriam ficar 5 é pedir demais!! Nesse caso a opção seria alugarmos 2 apartamentos de 2 dormitórios caso a casa não se concretize. Nesse caso cada apartamento ficaria R$1000,00 pelo período. (9 pessoas = R$222,22 por pessoa). Parece que esses apartamentos ficam na mesma região que a casa em questão.

É claro que deve ter ainda a taxa de limpeza para ambos os casos.

Vamos torcer para que a casa seja excelente, e não vamos nos decepcionar caso não seja e tenhamos que alugar os 2 apartartamentos. Lembrem-se que inicialmente estávamos prevendo 5 pessoas em 1 apartamento... o que seria R$ 200,00 por pessoa e estávamos achando ótimo. Agora poderá ficar só R$22,22 mais caro. Ou ainda pode ir mais alguém e ficar do mesmo jeito de antes só q com muito mais gente.

Beijos."

Tô boba.

21 de janeiro de 2008

O fim é belo e ...certo

Não que se queira falar de fins em período de inícios, de (re)começos e de grandes esperanças nascidas ou reforçadas pelo révelon. Mas o meu primeiro fim aconteceu já neste primeiro mês de 2008, com o fim da grande viagem aventureira que marcará os “inte”. Para os “inta” pensarei em algo tão ou mais grandioso. Porém, enquanto o seu lobo não vem, fico cá revirando as fotos, contando e lembrando causos, rindo sozinha e compartilhando as alegrias e surpresas tidas nesta viagem, absolutamente anestesiada pela realização de um plano tão aguardado e desejado.

Decretei meu período sabático de processamento das informações até que enfim estejam ordenadas as idéias. Assim, faço de conta que tamanho luxo é possível e que não há o trabalho, as obrigações, o retorno da rotina e o início brusco da engrenagem. E nem a curiosidade de Kerol e a minha auto-cobrança de colocar todas as sensações no papel.

Mas, antes disso tudo:

18 de janeiro de 2008

Fora de hora.

Daí que antes que mis amigas e compañeras queridas tragam as mileuma novidades da viagem mais super legal do século, cheias de impressões, ilustrações e comentários, deixa eu aqui postar um post (ouquei…) que já estava meio caminho pronto há duzentos e vinte e oito anos. Fora de hora, totalmente.

Mãs.

Em algum momento de novembro, fui pra Foz. Já tinha ido há dezenove alguns anos, mas realmente não me lembrava da grandeza da coisa toda. Que é grande. Deveras. E, de verdade, de tirar o fôlego. Anda-se, anda-se, anda-se, em todos os passeios e caminhos.

Com a parada anterior providencial no Paragua velho de guerra, para comprar câmera pequenina que só, então agüentem.



Águas por todos os lados, como não poderia deixar de ser.


E o Parque das Aves, que em princípio chega a dar uma agonia sem fim de ver pássaros grande e pequenos engaiolados, mas daí você chega nos viveiros mais ou menos abertos, e os animales todos passando bem ao seu lado, e tudo fica lindo.




Inclusive o pavão, que é um bicho grande que só. Muitos medos na hora que essa enormidade passa do seu (meu) lado, corajosa que sou com as cousas da natureza. Mas ele se abriu todo, vejam, e foi o melhor de tudo. Ainda mais porque com a devida distância de mi persona.

Cuja foto ficarei devendo, que achei que estava por aqui pelo escritório, mas não não.

Mas vai outro tucano então, bem lindo e desfocado, pra compensar.




Então ta, devidamente ilustrado tudo, vou fechar tudo mais cedo e vou ali na praia e já volto. Inté mais.

4 de janeiro de 2008

As salas de espera da vida acabam trazendo gratas leituras de quando em vez, como diria minha mãe.

Essa Veja rolou por todos os lados lá em casa, e só lembrei por causa da capa, do leão que teria virado papai noel com o fim da CPMF e coisa e tal.

Mãs, texto bom, muito bom. Ainda mais para os começos de ano e suas esperanças todas tão próprias e salvadoras.

Da Lya, a Luft.

As coisas boas

Recebo e-mail de um jovem de 16 anos reclamando, num texto lúcido e bem escrito, de que sou pessimista. Pois escrevi na última coluna que "ninguém faz nada", quando, segundo ele, eu deveria dar uma mensagem esperançosa a quem quer "mudar o mundo". De alguma forma, isso me comoveu. Quase todos queremos melhorar o mundo na juventude, e é bom querer não ficar rançoso, amargo ou queixoso na idade adulta. Pior ainda, chato na velhice. Sou esperançosa e otimista, por isso mesmo não posso escrever apenas sobre coisas amenas, e infelizmente não tenho mensagem nem receita para o mundo melhorar. Pois eu sou apenas mais uma pessoa que de um lado se alegra, de outro se aflige. O número espantoso de leitores desta revista me dá uma sensação de comprometimento com a não-alienação. Escondendo a realidade é que não se vai poder mudar ou melhorar coisa nenhuma.

Acho nosso momento tristíssimo. Até jornais estrangeiros importantes, que em geral não nos dão bola, registram os fatos que andam ocorrendo no Senado e em outras instâncias solenes como "coroamento da corrupção brasileira". A impressão que se tem, que eu tenho, é que ninguém anda fazendo grande coisa, ou pouca gente faz alguma coisa para melhorar. Escrever que "ninguém faz nada" é uma hipérbole literária, é como dizer, sem realmente querer dizer isso, "morri de ódio". Acho, sim, que muitos responsáveis não fazem nada, ou fazem o mal: desviam ou aplicam de maneira irresponsável dinheiro destinado aos pobres, desprezam a educação e a cultura, cospem na saúde, enganam uma montanha (não, um verdadeiro Everest...) de gente que merecia coisa melhor.

Mas também vejo muita gente fazendo muita coisa positiva, gente querendo acertar, jovens ou velhos com esperança, pessoas espalhando o bem. Cada vez que um de nós é leal com alguém, faz uma coisa boa; cada vez que respeitamos o outro com suas diferenças, seus dramas e necessidades, fazemos uma coisa boa. Cada vez que somos decentes em vez de perversos, cada vez que cultivamos compreensão e respeito em lugar de rancor, cada vez que somos carinhosos, alegres, solidários, fazemos coisas muito boas.

Cada vez que um jovem estuda, trabalha, e se constrói como pessoa produtiva e positiva, faz algo muito bom. Cada vez que um pai presta atenção no filho, cada vez que uma mãe é dedicada sem depois cobrar isso, fazem uma coisa boa. Cada vez que alguém fuma seu último cigarro, bebe seu copo derradeiro, cheira sua ultimíssima carreirinha e dá o primeiro passo numa nova vida, faz uma coisa maravilhosa. Sempre que alguém recusa uma baforada de maconha, negando-se a homenagear os traficantes que amanhã vão matar seu filho ou trucidar seu amigo, está fazendo uma coisa muito boa.

Quando olhamos uma árvore na beira da estrada, a luz do sol num gramado, a chuva na vidraça, a criança observando um besouro, um bebê dormindo, um velho rodeado pelos filhos, estamos fazendo uma coisa muito boa; cada professor mal pago que atende com dedicação seus alunos, cada médico de uma saúde pública apodrecida que cuida com humanidade de seus doentes faz uma coisa muito boa. Sempre que uma mulher aproxima os filhos do pai mostrando que ele é um ser humano, está fazendo uma coisa boa; cada filho que abraça o pai que já não o pode sustentar faz uma coisa boa. O político que rema contra a correnteza permanecendo honrado faz uma coisa muito boa.

Fazem-se muitas coisas boas neste mundo, e por isso ainda não nos matamos. Por isso ainda estamos abertos ao belo, ao bom e ao outro. Por isso vale a pena viver. Mas, sinto muito, o ser humano é um animal predador: o desejo de destruir e arruinar coexiste em todos nós com a bondade, a decência, a dignidade. Que fazer? Somos assim. Se pudermos estar do lado do bem, querendo melhorar o mundo, viva! As coisas não estarão perdidas, a amargura não vai nos dominar, a sombra acabará fugindo da claridade, e continuaremos sendo, mais que feras, humanos. Mesmo quando alguém escreve sobre as realidades menos bonitas, elas não precisam prevalecer. E muita gente continuará fazendo muita coisa boa, aos 16 anos, aos 68 ou aos 86.

1 de janeiro de 2008

Inícios.

Na verdade fiquei eu encarregada de deixar uma pequenina mensagem de final de ano, com os desejos todos de uma vida próspera, feliz e contente para todos, já que mis amadas compañeras encontram-se agora pela América Latina afora, se não me falha a memória em La Paz, onde passariam as festas das entradas.

O que significa que, muito em breve, o blog estará cheio de novidades mis e atualizações constantes, que imagino o que as duas não estão aprontando pela terra de nuestros hermanos. A história será re-escrita, aguardem.

Mãs. O facto é que, cá às voltas com sogra e sogro e cunhada e cunhado, acabei falhando miseravelmente em minha incumbência de mensagem de final de ano, ó vida.

Daí que, por conta disso, cá estou para ao menos deixar um alou de COMEÇO de ano, o que, vejam, é muito mais super legal e oportuno. Tudo friamente premeditado, na verdade.

E nada melhor do que, depois de vinte e cinco anos e meio de blog, fazer as devidas apresentações para o mundo virtual e real, desta vez devidamente ilustradas. Mesmo que sem autorização, que afinal eu estou aqui sozinhabandonada enquanto vocês desbravam terras desconhecidas por triiiinta dias! Mas EU tenho internet! Hahahaha! A vingança do pipoqueiro.

Brincadeira. Fé, que ninguém se zangará.

Prazer: Ferdi Maria, Merilú e yo.


E, é claro, todos os melhores desejos de um ano realmente alegre e contente, como não poderia deixar de ser, com ótemas experiências para todos, e com contentamentos tão grandes quanto ao de Merilú ali em cima, depois de receber presentes e mais presentes. Uma boa analogia esta, até. Agarrem os seus (presentes) com toda a empolgação e não soltem nunca mais, e que os frutos sejam sempre os melhores possíveis.

19 de dezembro de 2007

O Teatro Mágico - Entrada para Raros



Tudo muito lindo realmente. Com música, com poesia, com as pessoas declamando junto, com performances teatrais, decoração e figurino circense, pirofagia, malabares e coreografia aérea no tecido vermelho.

Quando eu crescer quero ser bailarina de tecido.

Acabo de constatar que de um jeito ou de outro eu sempre quis ser bailarina, só que as variações menos convencionais do ballet. Na infância era bailarina aquática, que inclusive dava como resposta à perguntinha de sempre do ‘o que quer ser quando crescer’ dos cadernos de confidência. Em segundo lugar, lá na lanterninha, professora daí.

Mas acho que eu sempre quis foi ser bailarina de tecido mesmo. De tecido vermelho. E rodopiar pendurada no teto do Master Hall, bem no meio da platéia.

So beautiful.

Mas, voltando, pude perceber uma certa euforia do público semelhante à que acontecia outrora com Los Hermanos. O que se justifica até, já que há essa profusão de qualidades artísticas acontecendo ao mesmo tempo e agora, tudo muito encantador e cativante. Os arranjos com violinos e instrumentos de sopro, o jogo de palavras nas letras das músicas (o teu afeto me afetou é fato, agora faça me o favor / Ana e o Mar, Mar i Ana - o "i" é por minha conta, naturalmente), os palhaços e as bonecas de trapo, o lema lançado “Os opostos se distraem e os dispostos se atraem” e outras tantas características próprias firmaram sem dúvida o nascimento de uma idéia muito original e ousada. E de muito talento.

Capítulo à parte foi Dayana Kelly, cheia de opiniões, que quase me maaata de vergonha com os seus comentários sobre as figurinhas atípicas (ou bem típicas) que curtiam o show do nosso lado. Primeiro um japa tiete altamente empolgado que dava pulos de 2m, tendo ele mesmo de altura total por volta de meio metro e que falava alto, mas bem mais alto que todos, a parte declamada das canções, ao que Day incitava, batia palmas e dizia: “é isso aee, é muito fácil ser rebelde quando se tem dinheiro!”

A outra figurinha era feia por demais. Pobrezinho, mas bem feinho mesmo e foi a Day se aperceber da presença do rapaz pra dizer que ele era tão feio que ele deveria ir embora.

Tsctsctsc...

Porém, contudo, o cartaz já dizia que a entrada era para raros!

E agora, como assídua usuária dos táxis do ponto do supermercado próximo da minha casa, recebo tão doce e gentil cartão que vos passo abaixo, porque, desta vez, existiu um scanner em tempo quase real (\o/):



Acompanhado de uma caixa de chocolates e entregue via fusca na porta da minha casa pelos "meus amigos do Táxi Extra".

Que mimo!

17 de dezembro de 2007

De episódio mais recente, já na era digital, mas que ainda assim não pôde ser registrado, teve o recadinho, quase um haicai, que deixamos no caderno de lembranças do Pico do Itapiroca, o qual alcançamos depois de mais de três horas de escalada no meio da floresta e perseguidas por dezenas de moscas mutantes gigantes cujo zumzumzum só não nos enlouqueceu porque graças a ele fizemos aquela trilha em disparada, praticamente sem descansos.

Moscas

Moscas

Moscas

Muitas moscas

No mais, a vista é bem bonita.


Porque as moscas, naturalmente, nos acompanharam até o topo.

Impressionante.

Ao final da trilha achei que não fosse capaz de andar por vários dias. Certo é que qualquer movimento que lembrasse um degrau me causava arrepios, mas ao final de 2 dias tudo se normalizou, graças.

Todo o meu ouro por um scanner.

Quantas cousas não passaram em branco aqui pela falta de um, cês nem imaginam.

Como, por exemplo, as Dicas para uma Boa Convivência, livremente criadas pela Anna e imediatamente coladas na porta da geladeira do apartamento que alugamos para passar o carnaval na praia em 7 meninas. Carnaval de 2003.

Lembro de ter pisado na cozinha pela primeira vez e de já estarem lá os curiosos escritos pendurados na geladeira. E da Anna ter ficado muito ofendida quando começamos a rir daquilo, fato que nos impediu à época de tornar esta pérola pública. Mãs, porém, contudo, não me impediu de tirar uma foto às pressas, suando frio e em pânico de que ela me visse fazendo aquilo, com a intenção de algum dia trazer à tona momento tão único.

Dentre as orientações que incluíam os infalíveis, sujou, lave, tirou do lugar, guarde, houve uma que mereceu especial atenção já que tinha esse intuito nobre de promover a conciliação dos povos. Atenções para o item de número 6*:


*Caso alguém seja deselegante c/ vc, converse com jeito, diretamente c/ a pessoa.

A escala de limpeza vinha acompanhando as dicas. E ainda trazia o que competia à limpeza.

Dessa nem eu lembrava.

14 de dezembro de 2007


HOUVE AUMENTO NO VALOR DA MENSALIDADE DECORRENTE DE MUDANÇA NA FAIXA ETÁRIA.

Óóóóódio.

11 de dezembro de 2007

Sobrevivemos sim, Mary.

Aos trancos e barrancos, como sempre, mas sim.

Até que os trancos e os barrancos fiquem maiores e mais difíceis, ou até que se crie milagrosamente as coragens ou as vontades de mudar de verdade, ao que tudo indica assim prosseguiremos.

Não que isso seja lá uma previsão negativa, que de tudo há aprendizados novos. Acho eu.

Pra mim que foi um ano – ou talvez O ano – de total comprometimento com o trabalho. Ano de decidir de uma vez e se posicionar de acordo. Tanto que, também milagrosamente, as tais crises duvidosas de fim de ano quase que não tiveram espaço dessa vez, o que não deixa de ser um alívio. Sensação de caminho certo.

O problema é quando esse comprometimento acaba por comprometer propriamente cousas a mais do que a dedicação laboral, digamos, e vão-se todos para as saúdes da pessoa.

E problema maior, de verdade verdadeira, é quando se começa a ter um início de retorno de todo este comprometimento e a esperança de retornos maiores, que daí se vê o quanto vai ficando mais difícil se largar de vez tudo e viver de amor e pesca, como sempre foi o plano b. E que nunca passou e passará disso, um plano b, cada vez mais longe do a, que reina absoluto na vida real.

Daí que só fica aquela coisa mal resolvida dos sonhos não concretizados, e aquela nostalgia precoce e uma senilidade fora de hora.

Das viagens que não vão ser; dos exílios que não há mais tempo; dos longos períodos de despreocupação que não voltarão; e da demora em se acostumar com tudo isso; e da falta de vontade de se acostumar com tudo isso e da certeza de que ninguém jamais deve se acostumar com isso.

Tudo é questão de adaptação, acho. Mas às vezes se adaptar muito facilmente com as coisas é mais comodismo do que qualquer outra qualidade mais nobre.

Ou seja, confusão total.

De repente nem sobrevivemos, Mary. Só queremos achar que.

Questão de sobrevivência, sabe como.

Fim de ano

Sobrevivemos?


Aparentemente sim.


Mas só aparentemente.

Trabalho demais para pessoas que só desejaram um trabalho. E não é preciso sofrer tanto só pra trabalhar, é?

Ano bastante conturbado, cheio de segundas vezes banais, cheio de pressa, de pulsações descompassadas, de coração sufocado, de cerveja além da conta, de viagens tétricas, de casamentos dos outros, de sonhos por se realizarem, de sonhos muito longe de serem realizados, de esperanças desfeitas, de quase ter uma nova vida, de vinho verde e sopa de ervilhas, de solidão, de lembrar de como eu era num passado que já é distante, de fins de semana com os amigos, de amizades confirmadas, de descobertas felizes, de correr na praça, de inventar moda, de limpeza geral, de decisões difíceis, de testar as resistências, de querer muito mais e de sair da janela e ir pra rua.