31 de maio de 2008

A tal da dança com facas:

29 de maio de 2008

De Gramado, Canela e Adjacências,
desta vez, por Mariana


Excursão.

Aquela coisa.

Fiquei um pouco atordoada quando percebi que a guia passaria os 4 dias seguintes, no decorrer de todos os passeios, falando e falando e falando nos nossos ouvidos. E falando no gerúndio, o que é bastante pior. Este o primeiro fenômeno peculiar da viagem: a guia somente falava no gerúndio quando fazia as explanações; nas conversas descomprometidas ela ressuscitava o bom português e falava certinho.

Aí que o grande barato da viagem foi mesmo o grupo da excursão.

Tinha de um tudo, minha gente.

Nós, as únicas xóvens solteiras, além de um outro xóvem solteiro que acompanhava o casal de velhinhos senhores seus pais, a fim de evitar que o casal se matasse; vários casais de meia-idade, alguns casais xóvens, dentre eles um em lua-de-mel e outro cujo marido era a cara do Zed do Loucademia de Polícia; uma mãe e uma filha e uma solteira de meia-idade psicanalisada (palavras dela mesma). E um metrossexual de meia-idade cantor da velha guarda.

Inevitáveis foram os acessos de riso, portanto. E os cochichos seguidos de risadinhas presas, o que gerava, Kerol sabe, aquela explosão mais ruidosa que a gargalhada propriamente. Isso tudo grande parte das vezes enquanto a guia explanava, mas todos os santos são testemunhas de que era para desviar a atenção do gerundismo todo que doía no ouvido.

Eu tenho 8 anos.

Mãs, ...não sem motivo: todos os restaurantes que íamos em que eventualmente houvesse música ao vivo, o nosso amigo cantante levantava a hipótese de dar uma palhinha até que no meio do repertório ora de canções italianas ora de música gaudéria, ele subia ao palco pra cantar “Ronda” ou “Chega de saudade”, em interpretações altamente teatrais absolutamente apaixonado por si mesmo que era. Quando desceu do palco e eu, naturalmente, cumprimentei-o-o pela apresentação, ele ficou muito admirado de eu conhecer “Ronda” (sabe cumé, sô xóvem) e mais admirado ainda de eu conhecer “Negue”. Neste mesmo embalo, disse, com toda a ausência de modéstia que lhe era peculiar, que o “Negue” dele não deixava nada a dever ao “Negue” de Maria Bethânia.

Enquanto isso, estreitávamos a relação com a nossa amiga psicanalisada que nos explicava que na nossa sociedade as mulheres ainda buscam um homem provedor e de que ela, ao contrário, não queria um homem para troféu. E que é no silêncio que escutamos a nossa alma, além de que a guia não entendia nada sobre a relação capital-trabalho, momento em que descobrimos que ela era, além de psicanalisada, socióloga, claro.

E a moça em lua-de-mel visivelmente acima do peso que nos contou quase em segredo,...como se não pudéssemos perceber..., que é gordinha, mas que o recém-marido só foi descobrir isso agora, depois do casamento, quando ela resolveu abandonar as 3 cintas que usava pra sair com ele.

E a “Garfo & Bombacha”, um show de churrascaria, onde se come e se assiste ao show em que os gaúchos provam que são realmente machos, numa dança com facões deveras impressionante.

Tiveram também os passeios.

Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Gramado, Canela e Nova Petrópolis, o tour do vinho e dos chocolates e dos couros, da comilança desgovernada e das coisas carérrimas.

Os carros páram pra não atrapalhar a sua foto.

O teleférico do Parque do Caracol e a escadaria que leva lááá embaixo da Cascata do Caracol, lindíssima, foram os meus preferidos, eu que vivo este momento lindo de integração com a natureza.


Numa definição sucinta, Gramado é européia até dizer chega, com direito a descendentes nórdicos lindíssimos desfilando pelas ruas.

Enfim, recomêindo.

Era um dia em que eu intencionava fortemente passar todo ele de mau humor.

Que era segunda, a tal da angústia matinal do doido, a força descomunal pra sair da cama, o atraso, os 40 minutos não planejados esperando o ônibus...

Ensaiando quadras antes a minha melhor cara para o início triunfal do dia de trabalho, eis que na chegada da portaria do prédio, o porteiro - aquele que já não disfarça os olhares 43 para o meu lado - pergunta-me, logo depois do bom dia, se sou romântica e se gosto de poesia e me entrega um papel que seria um texto escrito por ele mesmo, já que ele está a escrever um livro, e sabe que existem erros na escrita, mas mesmo assim gostaria que eu o lesse:


Fecham as portas do elevador, eu com o texto na mão, tendo que manter ainda 'a melhor cara' pra não ser delatada pela câmera do elevador cujas imagens são vistas em tempo real por quem, por quem?

Alguns dias depois, ele me diz que escreveu outro texto, desta vez sobre a “saudade”.

* Transcrevo, já que os html's não me axudam:

Só para Refletir.
A Felicidade
A Felicidade Para Algumas pessoas Pode Até Demorar E, As Pessoas Que Nós.....Amamos Nos Magoa E....Nada Podemos Fazer Se Não Continuarmos a Nossa Longa Caminhada Do Nosso Dia a Dia , E Claro!!! Com o Nosso Coração Machucado.
Sabe, Muitas Vezes Falta Também Amor, Esperança, Compreensão De ambas Partes.
Sabemos Que o Amor-Nos Machuca Profundamente E...A Gente Vai Recuperando Lentamente Dessas Feridas Tão Dolorosas.
Perdemos Também a Nossa Fé e....Então Descobrimos Que Precisamos Acreditar Mais! Tanto Quanto o Ar Que Respiramos; No Qual A Única Razão De Existir E Viver.
Reflita.

Ctba, 05/05/2008.

9 de maio de 2008

Mas problema sério mesmo

É fazer entrevista com pessoa embriagada. Sendo a 'entrevista' no causo sobre a possibilidade ou não de entrar com "ação judicial", como já dizia a outra, contra a empresa. E eu ali de apoio da moça bacharel que trabalha no escritório e que dá de dez a zero em muito adevogado calejado, mas isso não vem ao caso, e me perdi.

Mas estava eu de apoio moral né, só ouvindo. Ou tentando. Que a pessoa embriagada falava baixo e enrolado e baixando cada vez mais o tom de modo que realmente foi impossível. Até que, em um dado momento a pessoa dorme. Um cochilinho básico ali na frente das dotôras. Que é pra recuperar as forças né, que contar os problemas é uma coisa cansativa, eu sei. Cansou de contar que foi contratado num dia e demitido quatro dias depois e cochilou mesmo. Por uns bons segundos.

E a gente né, lá. Tipo assim. Uma olhando pra outra e outra olhando pra uma e acordamos a pessoa e 'não, realmente não tem jeito, não tem ação, não tem nada', alto, muito alto, e a pessoa agradeceu - ou coisa do tipo interpretada como tal por crença na humanidade - e foi-se.

O charme e o glamour da profissão. Belezura.

Mas ficou bom, sabe.

O brigadeirão de dois anos e meio atrás.

Nem ia servir nem nada no almoço, porque depois do episódio todo e da garrafa de vinho secada para afogar as mágoas culinárias, achei uma boa idéia deserformar a coisa e daí tudo virou um chuchu ainda maior.

Mas servi, que não tenho amor próprio. Alguém lá longe perguntou "que é isso, fígado?", mas foi tudo, tigela raspada, juro.

A falta de assunto. Um problema sério.

20 de abril de 2008

Daí que

É sábado, sendo que segunda é feriado e cá estou. Nada de viagens, nada de grandes planos para aproveitar os prolongamentos todos de dias de recessos, nada daquelas coisas pelas quais esperávamos ansiosamente nos tempos áureos de ócio. Ou de menos trabalho. Ou de trabalho normal, vá saber.

Ao contrário, cá estou na cidade mesmo, com o digníssimo marido trabalhando nas noites inteiras de sábado e domingo – um chuchuzinho – e três pocessos aqui do meu lado, que já há tanto me encaravam no escritório que os trouxe para passear. Sempre é bom tê-los por perto para um eventual ataque de ansiedade, que daí dá pra ir adiantando alguma coisa para aliviar as agonias todas.

Mãs. O facto é que – talvez na ânsia pelo novo, muito incauta – tentei me aventurar na cozinha. Sim, neste território nunca dantes explorado e desconhecido quase que inteiramente por esta que vos fala. Pra fazer uma sobremesa, nada de mais. Coisa que era pra ser muito simples, uma lata de leite condensado, uma de creme de leite, tantas colheres de açúcar, três ovos e chocolate em pó. Coisa envolvendo forno com banho maria, um desafio.

Coloca-se tudo no liquidificador e enquanto se unta a tal da forma com um buraco no meio, que tinha que ter o buraco pela receita, que todo o sabor se mudaria por completo em caso contrário. Bati tudo, experimentei – experiência adquirida de outras tentativas piores – e notei que havia esquecido o açúcar. Normal, de ciiiinco longos ingredientes, se esquecer de um. Daí que. Cadê que não há açúcar na casa. Açucareiro vazio, lavado e limpo. Não sei por quem, mas isso nem vem ao caso agora. Que fazer.

Eis que, muito sociável, fui em busca dos vizinhos, mais clichê impossível. Toca uma campainha e nada. Toca de volta, barulhos lá dentro, mas nada. Toquei a do lado, e o cachorro – ao menos – ouviu, que não parou de latir e causou um efeito em cadeia, de uns cinco ou seis cachorros latindo e uivando por todos os lados. Mas nada de alguém me atender. Saco.

Ta, fugi dos latidos todos e em casa encontrei uns adoçantes e, se não tem tu, vai tu mesmo.

Tudo muito certo, forma com furo devidamente untada e pronto, coloquei a mistura lá. O problema é que além dO furo, havia outros, modos que a coisa foi vazando. Tentei parar com o papel alumínio com o qual eu deveria cobrir a coisa pro tal do banho maria, mas nada.

Ah, e o banho maria. Antes disso eu reparei que nada havia nesse mundo em que coubesse a tal forma pra cozinhar no maledeto banho maria. Tive que tirar uma forma redonda com as carnes que vão ser cozinhadas amanhã – por quem sabe, maridón, e não eu, fiquem tranqüilos – limpar, lavar e lavar. Mas, como a coisa toda foi vazando e vazando, inclusive pelo chão, forno e pia – don’t ask – mudei tudo de lugar e foi em forma sem furo, sem untar e direto no forno. Que puta merda. Assim não pode, assim não dá.

Amanhã eu conto.

Tudo muito estressante, tenso e cansativo. Serei advogada pra sempre, que só isso. Se as leis e os problemas das pessoas acabarem, só o ponto cruz poderá salvar, que vou te contar.

Daí que cá estou quase no final da garrafa de vinho – aberta a duras penas, devo dizer (uma vergonha para a mulherRR independente que achei que era –, pra relaxar dessas tensões culinárias.

E alguém me disse que cozinhar era quase que uma terapia.

Sei.

14 de abril de 2008

E não é que no meio da loucura, descobri mulherzinha.

“Quando eu penso que escolhi a intensidade para lutar contra as coisas que são tiradas de mim com rapidez arrasadora, eu peço um pouco mais de tempo para que eu possa olhar com calma antes de tudo ir embora, até mesmo eu, que amanhã volto para minha vida e deixo a realidade do meu passado e o tempo, congelados na casa dos meus avós. Eu não dou conta de tudo.”

“Não me conformo com pouco e sempre digo que minha maldição enquanto mulher é não aceitar menos do que tudo, mas aceito de bom grado “a parte que me cabe nesse latifúndio”, mas que os meninos continuem meninos, e que Paris não esteja tão longe.”


Saudade matada daquele tempo de descobertas bloguísticas no meio das tardes intermináveis e de quando ainda rolava uma super identificação.

Eu também não dou conta de tudo, mas agora eu sei.

Consolo.

3 de abril de 2008

Eu sou uma pessoa nervosa.

Nervosa tipo ansiosa, não nervosa-brava. Antes fosse, até. Que de repente era mais saudável, vá saber. O que daria uma conversa muita grande e cheia de reflexões e tudo mais.

Enfim.

O facto é que eu, pessoa nervosa que sou, fico deveras agoniada com o abandono total do blog. Não pensem que não, que mesmo depois desse tempo todo sem dar o ar da graça, é tudo muito angustiante. Foi uma aligria de viver ter visto aqui Merilú ressurgindo e movimentando as cousas dantes tão paradas pela velha conhecida falta-de-tempo-pra-tudo-nessa-vida-quanto-mais-pra-escrever-no-blog.

E foi é coisa que aconteceu durante este silêncio, que nem sonhando vai dar pra atualizar bonito. Perdi o jeito pra coisa, eu acho, disso de transmitir os acontecimentos quase que em tempo real, com as impressões fresquinhas e sem muito enfeite.

Um belo dia hei de retornar à velha forma, muita fé.

Sei que o Festival querido chegou e foi-se, e nada foi comentado por cá.

Na vida real, fomos às peças, umas muito boas e outras, pra variar, nem tanto assim. Das minhas foram nove ao todo, as quais – talvez sendo até pessimista pelo ritmo das cousas – provavelmente não vão ser contadas assim, como antes. Mas qualquer hora sei que surgirão, mesmo que espalhadas no ano, quem sabe, que daí não falta assunto e fica aquela coisa super agradável do monotema.

Sei também que mudanças radicais foram um fator comum na vida das pessoas por aqui, boas, ruins, atropeladas, repentinas e boas de novo.

Como cá falo por mim, que senão falo demais, as mudanças todas ficaram em torno do trabalho, sempre ele. Continuo lá no mesmo, como há quase nove anos, os outros (o outro, no caso) é que saíram. Mas não sem antes fazer a nhaca do ano – século, milênio – e deixar os remanescentes juntando os caquinhos. Tudo regado a mentiras, traições & ambição, no melhor estilo telecine action possível. Sobreviveremos, como de fato já estamos sobrevivendo, mas a tranco foi grande.

Ansiolíticos, vejam vocês. Só eles salvam.

Daí que tomei vergonha na cara e fui numa doutora endócrino pras gorduras todas que só se acumulam. E descobri que funciono ainda pior sob pressão, que além de não emagrecer, eis que chegou com tudo quase um quilo em um mês. Bem no mês do ‘tratamento’, veja. Um chuchuzinho.

E é claro que as boas, boníssimas, coisas de la vie estavam sempre lá, na alegria e na tristeza.

Um vinhozinho com os amigos no domingo à noite em véspera de semana pesada; um vinhozinho que se multiplica em quatro como que num passe de mágica nesta mesma noite de domingo véspera de semana pesada; semana pesada que demooooora pra passar, só pensando no próximo vinhozinho; chopps e mais chopps tomados antes, depois e nos intervalos das peças do festival; mesas de bar cheias de lembranças e histórias; pedir Freedom e ainda For All no botequinho, o não é pra todo mundo (pra não exagerar na piada interna, foram os dois pratos pedidos na noite, que coincidentemente deu nessa combinação poética que só. agora alie isso a quatorze cervezitas e se tem um discurso sobre as nuances da liberdade no mundo desde a era mesozóica até a contemporaneidade).

E ir vendo né, como vão e voltam e abrem e fecham e puxam e esticam e a vida acaba rumando pro seu curso à normalidade, e que a normalidade não é esse monstro de tédio, não, muito pelo contrário.

Ta aí pra quem puder ver, ou quiser.

Ou são os ansiolíticos, vá saber ;)

30 de março de 2008

O Amor

(Vladimir Maiacovski)


"...Ressuscita-me
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
Ressuscita-me
lutando contra as misérias do quotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
quero acabar de viver o que me cabe
minha vida
para que não mais existam amores servis
..."

Por detrás de todo esse silêncio, a vida moveu-se como nunca.

E foi nova e diferente até onde pode ser, mas tem sempre um ponto que não se ultrapassa e a partir do qual a vida volta a ser aquilo que sempre foi até aqui.

E foi rápido e fulminante.

Estamos em casa novamente.

"Sonho, visão ou poesia
O menino me aparecia
Trazendo sobre seus ombros
Uma estrada

O menino era alegria
E a estrada não lhe pesava

Sonho, lucidez ou fantasia
Eu tinha diante dos olhos e da mente
O caminho da vida.
”

Milton Nascimento.

Lima.

Chegar ao nível do mar depois de tantos dias nas alturas não me fez bem, nem um pouco. Que gostei demais das montanhas, do ar rarefeito (cof!) e até da visão desfocada das coisas que as altas altitudes proporcionam.

Em Lima dava pra enxergar melhor as formas e as cores, mesmo com toda a insistente neblina que turvava a vista da praia durante todo o dia. Assim sendo, dava para enxergar também as sobrancelhas crescidas, os cabelos queimados pelo sol, a pele escurecida, seca e descascada e os pêlos todos que cresceram sem serem percebidos até então.

Antes de bater perna pelas ruas, iniciemos a depilação então, ora pois.

Nos hospedamos em Miraflores, o bairro nobre de Lima onde as pessoas passeiam pela avenida beira-mar no fim de tarde e vêem o sol se pôr no Pacífico sentados no banquinho da praça, com a Rosa Náutica ao lado, ou o Farol ou a escultura “El Beso” que enfeita a Praça del Amor, cercada ainda de mosaicos coloridos cheios de frases escritas pelos namorados. Eu já sonhei com isso uma vez, as palavrinhas perdidas montando frases...



E o Larcomar, o novo shopping construído encima das rochas, de frente para o mar que tem pedrinhas em tons de azul e lilás no lugar da areia, e onde se passeia sentindo a brisa fria, ouvindo jazz e vendo o jogo de luzes da orla quando escurece.



O bairro charmoso dos bem-nascidos que acordam com o mar na janela me lembrou o Rio. Já as avenidas largas que percorrem Miraflores, os prédios modernosos e a rica rua dos cassinos remeteram-me à pomposa Avenida Paulista. Mas aí caminhei pelo centro histórico, pelas plazas e pela rua só dos pedestres e antecipei lembranças da própria terrinha...tudo era muito parecido com Curitiba.



Mas tinha calor, o que ficou definitivamente marcado na memória quando ao caminhar pelas ruas à noite, seguindo a música e o movimento de pessoas que se aglomeravam numa praça, encontramos sem saber e sem esperar, uma Peña, festa típica em que as pessoas dançam ao som da música também típica tocada por uma pequena orquestra em plena praça, como um anfiteatro ao ar livre.

Inevitável foi nesse momento bancarmos naturalmente e sem nenhum pudor os típicos turistas deslumbrados que se sentem totalmente à vontade em terras estrangeiras ao fazer a sua primeira descoberta da cidade:

Aí concluí que Lima, de todas as cidades percorridas, era a que mais fortemente mesclava as características de todos os lugares de lá e também daqui, e provavelmente de toda a parte, sem, contudo, perder a sua marca, que assume forma ainda mais especial por não se deixar perceber de imediato.

6 de março de 2008

Pero chegou!

24 de fevereiro de 2008

Machu Picchu vista de Wayna Picchu

"E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!"
Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços

Andei por uma cidade invisível, encoberta pelas nuvens andinas 8 horas da manhã; andei por uma cidade de pedras e degraus, descidas, subidas e fôlegos profundos; andei por uma cidade sem igrejas, a única livre do pecado dos deuses e dos homens, que escondida entre a constante neblina passou sem ser notada pelo desatento conquistador branco; andei por uma cidade de orquídeas e lhamas, uma cidade sagrada onde turistas se acotovelavam entre ridículos chapéus e capas de chuva coloridas; andei por uma cidade monocromática assustada com flashes de câmeras japonesas, uma cidade de templos e lendas misteriosas, de ruelas estreitas e corredores esquecidos; andei por uma cidade fantasma, uma vila em ruínas, até que finalmente deitei na grama e ali fiquei, enquanto uma lhama amiga comia raminhos verdes nos meus pés, e olhando o céu entendi como rapidamente um carneiro se converte em gato que depois em caranguejo até se dispersar no vento. E então voltei e mais uma vez andei. Andei olhando a silhueta dos morros onde um homem de nariz grande descansava sorrindo; andei com os vaga-lumes na noite descendo um caminho recortado no meio da selva peruana, cutucando o chão com um pedaço de pau como um cego, vendo vultos em formas de monstros como uma criança que inventa imagens no quarto escuro.
Quem caminha por Machupicchu, cidade encontrada, sente a urgência de ver, como se fosse preciso tirar o atraso e a poeira dessa cidade tantos anos perdida. Por isso andei esperando que brotasse na cara uma dúzia mais de olhos. Inutilmente, é claro. Os olhos, nestes casos, são grandes atrapalhos, já que Machupicchu melhor se mira com mãos, pés, ouvidos, narizes e uma alma não tão pequena.

Texto de Mari Sanchez, 2005.

Cusco

*Suspiro longo*



*Suspiro longuíssimo*


Amor sublime amoRR.

Sobre Cusco, desde sempre, só ouvi coisas boas e, ainda assim, não só consegui me surpreender positivamente como passei a fazer parte da massa de visitantes que sai por aí recomendando às pessoas de todo mundo que não passem a existência sem conhecer Cusco.

Cidadezinha européia, com direito a frio congelante, céu cinza e chuva, arquitetura antiqüíssima e cercada de História por todos os lados.



Com a grande e calorosa diferença de estar na América Latina, onde se podem reconhecer todas as nossas características sociais e humanas. Detalhe este que pode ser tão bom quanto ruim.

O guia do city tour que fizemos pela cidade bem lembrou de que Cusco é a cara bonita do Peru, atrás da qual fica bem escondida a sua pobreza. Este mesmo guia ao nos mostrar as ruínas incas em volta da cidade não deixava de destacar o quanto a dominação dos espanhóis aniquilou a cultura do seu povo em nome da religião católica, o que mais tarde foi ingenuamente e em vão justificado com um: “naquele momento, a religião não estava em boas mãos”. “Pero, la religion nunca está em buenas manos”, disse ele.

Nas cidades anteriores, a constante abordagem nas ruas e pontos turísticos de vendedores ambulantes e crianças oferecendo coisas não foi tão intensa e incômoda quanto em Cusco, onde é bem mais acentuada em razão do maior turismo, além da pobreza geral evidente. Onde quer que fôssemos surgia sempre uma leva de mulheres e crianças vestidas com roupas típicas vendendo bonequinhos, gorros, mantas, souvenirs, etc, etc, o que nos obrigava a repetir incessantemente “no, gracias”, “no, gracias”...

Porém, tática realmente eficiente, e sedutora na mesma medida, eram das crianças peruanas vestidas como bonecas que apareciam sorrindo e perguntando se não gostaríamos de sacar una foto, o que custava normalmente 2 soles.

Teve uma que carregava uma alpaca bebê enrolada numa manta colorida que elas usualmente levam nas costas. Não houve como não sucumbir...

Algumas abordagens, no entanto, eram espirituosas:

City tour? No, gracias.

Passeio pelas Islas Flotantes? Já conoci.

Copacabana? Já fuimos.

La Paz? También.

Entonces, ...massage?

...

Chegou um momento em que não ter recebido pelas ruas a oferta da “massage” começou a gerar um tipo de mágoa x baixa estima.

Outro atrativo de Cusco é a noite. A boate sensação de Cusco, onde “ustede descobre que estás vivo”, o Mama África é um lugar de astral especialmente único, onde se fala todas as línguas e se encontra gente de todo o mundo e, também, onde a oferta é igualmente farta e, no caso, bem outra - se é que vocês me entendem.





Ir embora de Cusco é de cortar o coração.

9 de fevereiro de 2008

Espetáculo da vida, parte I:

Chuquito, localidade de Puno – Peru.

Chegamos em Chuquito de micro-ônibus junto com os nativos da região, depois de um tour que incluiu um trecho de bicicleta-táxi e outro de moto- táxi. Tudo muito integrativo, digamos.

Devíamos ser os únicos turistas no lugar, já que é uma festa típica da região que acontece no primeiro dia do ano. Cheguei a sentir um certo constrangimento em não estar vestida de saia rodada, xale nas costas e com o chapeuzinho de chola na cabeça.

Na nossa concepção, é um tipo de carnaval, em que várias bandas, cada uma de uma cor, instaladas numa arquibancada ao ar livre, tocam cada uma a sua música, uma do lado da outra, o que resulta numa grande balbúrdia musical. Abaixo, ficam os integrantes de cada 'escola', fantasiados, dançando ciranda e tomando todas. Aliás, todos, sem qualquer distinção de sexo ou idade, bebem todas - outra coisa que me fez associar a festa ao nosso carnaval.

Junto à festa existia uma feira, onde se vendiam os favoritos pollo frito e chorizo, dentre outras comidas típicas.

Ao final, é feita a premiação da melhor banda.

Chances como esta, de conhecer algo que acontece num lugar cuja existência até então era de todo desconhecida e que, por um lance de sorte, estamos presentes no momento em que acontece - o que ocorre uma única vez no ano -, algo tão característico, tão próprio, tão cheio de beleza, são coisas pelas quais a gente se sente alguém realmente privilegiado na vida.

8 de fevereiro de 2008

Daí que necessito desta outra pausa, nem pra falar do carnaval, já que estranhamente a pessoa escreve um post sobre o seu ano novo quando estamos de volta do carnaval - que foi bom, muito bom, na medida do possível quando se trata de carnaval, o feriado com o poder sem igual de tornar todos os lugares terríveis – mas para espalhar a boa nova de que a Cris está com o seu blog novamente de portas abertas às pessoas de toda a parte. Talvez ela me odeie por esta publicidade, mas é que a emoçã é incontida.

Perdoa!

"É como quando o seu namorado diz que vai voltar pra ex, entende? Aquela que quase destruiu a vida dele. Que acabou o namoro e ele perdeu 20 quilos e ficou desnutrido, deprimido e descrente do amoRRR. Aí você tava passando ali com a sua carrocinha, né, porque é isso que você faz vida afora, e recolheu o sem-amor. Deu casa, comida, roupa lavada, amor, carinho, compreensão, all that etc bullshit, belo dia ele chega e te diz que a ex quer voltar. Você tinha dado um voto de confiança à humanidade, abriu sua casa, sua conchinha secreta que te protege do mundo, abriu seu coração, abriu sua vida pra pessoa entrar, enfim.

E a pessoa vai embora sem mais.

E você fica na merda."

Por essas e outras que necessito.

\o/

7 de fevereiro de 2008

O Ano Novo passamos debaixo de muita chuva e muito frio em Copacabana, na beira do Lago Titicaca.

Copacabana tinha rendido muitas expectativas por conta especialmente da Isla del Sol, lugar pelo qual me encantei desde a primeira descrição.

O passeio de um dia pela Ilha possibilita conhecer a parte norte, mais distante, onde estão as paisagens mais lindas, misturando o terreno árido e montanhoso e a água cristalina do lago, as poucas casas bastante rústicas e as mulheres em seus trajes típicos vendendo tecidos e artesanatos pelo caminho.



Lá conhecemos o Pedro, carioca queridíssimo que viajava sozinho desde a Venezuela, descendo o continente, e seu amigo Uri, um israelense de 71 anos que encarava os passeios com total disposição e jovialidade carregando por toda a parte a sua mochila deveras grande e pesada.

Se, por um lado, foram fascinantes a paisagem, a oportunidade de conhecer o lago mais alto do mundo e de confirmar as informações de ser Copacabana uma cidade povoada de gringos e jovens hippies, cheia de mercearias e lugarezinhos simpáticos, por outro lado, o mau atendimento prestado aos turistas, a precariedade dos serviços nas hospedagens, o horário precoce de fechamento dos restaurantes e bares e a escassez de comida e água (ambas acabavam depois das 22 horas) causaram uma certa decepção, inevitável até mesmo aos viajantes mais simplórios e pouco exigentes.

A esta altura, continuava eu resistindo bem aos sintomas do mal de altitude, mas, em compensação, meu intestino não funcionava, meu rosto descascava em partes e nascia uma íngua no meu pescoço. No entanto, tudo estava muito bem. Nada poderia afetar afinal alguém abençoada pelo espírito inca em ritual praticamente sacro-santo acontecido às margens do Titicaca, com direito a banho de espumante boliviano no momento dA Virada.

A benção incluía um ai-ái-ah ao final da oração, o que imagino eu servia para melhor emanar as energias positivas que hão de vigorar por todo o ano!

Ai-ái-ah para ustedes tambien!!

1 de fevereiro de 2008

Por conta dos mais de 3.800 metros de altitude que nos aguardavam em La Paz, metade dos viajantes ficaram baqueados já no aeroporto. Falta de ar, dores de cabeça, sensação de cansaço, para alguns, diarréia e náuseas.

A outra metade permaneceu firme e forte, só sucumbindo à cerveja quente e espumante que era servida nos lugares. Eu mesma senti nada não. Aliás, acabei constatando que nasci mesmo foi pra viver nas alturas que, puxando pela memória, desde criança, sintomas de mal estar físico e ‘baixura’ sempre senti foi na praia, no nível 0.

Nada, entretanto, que uns dias de adaptação, chá e folhas de coca não pudessem resolver. E dá-lhe um e outro. Coisas estas com as quais não me adaptei já que na bem dizer única vez em que tomei o chá botando fé de que ficaria preparadíssima pra subir os 100m que faltavam até o Pico de 5.400m de altitude do Chacaltaya, consegui somente uma taquicardia e precipitações gastro-intestinais. Esta parte eu não precisava contar, é verdade, mas sinto uma necessidade de mim para migo mesma de justificar o fato de não ter chegado aos 5.400m, mas somente aos 5.350.

O Chacaltaya, por sinal, foi uma das maiores atrações de La Paz, passeio espetacular, com direito a no mesmo dia calor & frio em seus extremos, pânico tanto no caminho, dentro da van, da onde não se enxergava o chão da estrada, mas somente o precipício ao lado, quanto na caminhada até o Pico, com os raios e trovões que não cessavam. E a neve que presenteou os tupiniquins tropicalientes em pleno janeiro.




Aí me pergunto, e o gosto pela aventura e perigo, surgiu quando mesmo?

La Paz é um prato cheio. A cidade mais particularmente chocante e espantosa de todo o caminho. Lembrou-me “Blade Runner” ou o recente “Filhos da Esperança”. Quando o mundo estiver perto do fim, todas as cidades parecerão La Paz. E, paradoxalmente, em La Paz há muita vida. Vida que se mantém a despeito de todas as condições desumanas, a completa ausência de preocupação ecológica, o lixo, a miséria, o caos.



Nenhuma palavra melhor define La Paz do que caos, o que se evidencia em primeiro lugar, e de forma bastante impactante, no trânsito, que funciona na base da buzina, com os carros sucateados se atravessando uns sobre os outros, e também sobre os pedestres, estes um mero detalhe no meio de tudo; na imensidão de casas sem pintura e sem reboco amontoadas encima das montanhas e no povo que parece estar todo vendendo pequenezas no meio das ruas. Não só pequenezas, mas também laranja descascada, "chorizo", “pollo” frito, carne crua, pães em pilhas e pipocas.



Em La Paz conhecemos pessoas ótimas, dentre eles os mineiros Mariana, Isabela e o João, mais conhecido como “O Paceña”, já que após as explanações dos guias, quando seria normalmente o momento das dúvidas e perguntas dos turistas, ele levantava o braço e perguntava se lá onde íamos tinha paceña, uma cerveza boliviana, pra vender.
Descobri com eles e mais outro grupo de mineiros que andavam em sete meninos e uma única menina e que encontramos em todos os lugares por onde passamos, - a menina em todas as ocasiões abanando e sorrindo para nós como que pedindo desesperadamente por uma amizade feminina - que os mineiros são as pessoas mais amáveis, sociáveis e gentis de que já se ouviu falar. E eles ainda nos diziam com o jeitinho típico minêr: “acho tão lindo o sotaque ducêis”.

29 de janeiro de 2008

Charlie Gil (lê-se Guil), taxista em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.

Segundo ele, primo do apresentador Raul Gil (o pai dele seria primo em primeiro grau).

Identificado brasileiro ao dizer: “si, si, o aeropuerto és meio longinho”.

Entre um ponto e outro da cidade que nos apresentou, ia contando piadas machistas, cortando os carros no trânsito, subindo as calçadas nas curvas, acelerando nas rodovias, até quase nos matar ao se virar todo para trás, pra fazer funcionar o vidro elétrico da janela de um carro cujos bancos eram no chão, enquanto mantinha o pé fundo no acelerador.

Pelo que foi possível perceber, fora do carro representava tanto perigo quanto dentro, já que ao avistar suposto pivete que supostamente importunaria os seus clientes, ameaçou bater nele com a garrafa de cerveja, a mesma que bebíamos em confraternização, comendo comidinhas típicas.

Na despedida, cobrou o dobro do combinado pela corrida.

Primeira grande lição:

A relação aparentemente amistosa firmada com pessoas a quem você está pagando não deve ser considerada amistosa de fato. O “Fator Gente Boa” estará neutralizado sempre que:
a) vc estiver pagando
b) vc for estrangeiro
c) vc for turista
d) todas as alternativas acima existirem conjuntamente.

Comecemos por partes...

Na tentativa de não esquecer de nenhum dos causos, de nenhuma das impressões e, principalmente, de nenhuma das pessoas que cruzaram o nosso caminho na viagem.

Mãs, tenhais paciência com esta que vos fala, que a pressa sempre foi inimiga da perfeição. Neste caso, a pressa significaria a morte matada dos fatos mais pitorescos e das sensações ainda a depurar.

Entonces, vamos lá:

De como é linda Corumbá,

onde chegamos depois de viajar a noite toda no melhor ônibus de todos os tempos, cheio de funcionalidades, com um espaço gigantesco entre as poltronas, que já eram mais largas que o normal, encosto para as pernas e, naturalmente, ar condicionado. Tudo isso me causando efusiva alegria.

Passávamos, sem saber, pelo primeiro extremo climático da viagem, que começou na sala vip da viação Andorinha, onde esperamos o ônibus por horas, assistindo ao especial do Rei na TV, abafados num calor que o mais potente ar condicionado não venceria, e terminou em tempo recorde, dando vez logo em seguida ao extremo climático inverso.

E a cidade que era para ser somente nuvem passageira e onde as circunstâncias felizmente nos obrigaram a ficar além do planejado, acabou sendo a primeira e grande boa surpresa, com os seus sobrados antigos de muros baixos, portas estreitas e mosaicos nas janelas, as árvores da rua cheias das luzes de Natal, o calor inacreditável, o nosso albergue chiquérrimo com piscina de água naturalmente morna.

Do passeio de chalana pelo Rio Paraguai, que nos proporcionou as primeiras fotos/cartão postal da viagem, o primeiro jacaré visto de perto e os bichos todos do Pantanal.



Da peixaria do Lulu e do primeiro peixe de rio; do Ney, taxista paranaense que salvou a viagem da Sio; das primeiras amizades; do primeiro desacerto.

O contraste estampado já na porta de entrada para os ‘bovilianos’ e a primeira sensação de que como o Brasil não há.

E eu que não tenho grandes simpatias por lugares quentes, me rendi ao calor de 40º à sombra e à luz do dia que faz os olhos doerem, e nem liguei pra o que não deu certo porque na verdade estava começando do modo mais acertado.