3 de julho de 2007

A gente vê que ficou pra titia quando a nossa chefe passa a comentar de todo e qualquer cliente, remanescente solteiro mais ou menos apresentável, com os olhos brilhando e o ar de quem sugere, no melhor estilo da querida e saudosa Cris: TUA CHANCE, Mariana!!

As pessoas se incomodam com os solteiros não?

Sempre partem do pressuposto de que se não tem, está procurando, e, se não está procurando, é uma dissimulada da pior espécie. Bom, devo ser uma dissimulada da pior espécie, mas não por outra razão, além da de manter comigo a absoluta convicção de que certas coisas não se procuram, ...apenas se encontram, graças a alguma conjunção astral favorável.

E acredito piamente de que nada, mas nada mesmo que vc faça com o intuito de fará alguma diferença no andar da carruagem.

Falamos de 'encontro', bem entendido. Após o encontro, existem aquelas outras cento e cinqüenta mil variantes/determinantes que fatalmente levarão ao fim, com poucas e cada vez mais raras exceções honestas.

Mããs, a variante “total inabilidade para a conversação com qualquer ser do sexo masculino desconhecido mais ou menos apresentável” deve ter algum peso na manutenção do statu quo solteiro, passo a ponderar.

Sim.

...

Certamente que sim.

No ônibus, música instrumental escocesa, ou, algum outro álbum que bem poderia ser a trilha sonora de "Coração Valente" e ter um clip em que Mel Gibson corre pelas montanhas do Reino Unido de saia xadrez pregueada;

Andarilha vestida de quimono preto florido e com um coque no alto da cabeça que estende um tapete (que costuma carregar nas costas) na grama da praça e começa a dançar sozinha e a girar com os braços abertos;

Casinha branca bucólica escondida no Alto da XV ocupada por pessoas vegetarianas que usam nomes zen, cantam mantras indianos e tocam pianinho com fole.

Às vezes a vida se parece demais com alguma coisa que não existe.

1 de julho de 2007

Essa idéia de que o amor para ser completo deve incluir o momento da separação já foi tema de um dos textos do Jamil Snege, com o qual, apesar de me agradar a poesia, jamais concordei, o que me deixava naquela posição desconfortável de discordar de alguém que se admira e a quem, até então, eu somente lia assentindo positivamente com a cabeça. Tinha a impressão de que a intenção era apenas a de criar polêmica, mas vejo que a idéia é antiga e até bastante propagada.

Passei a estranhar menos, no entanto, depois de ler a uma entrevista em que ele falava sobre o assunto e explicava o seu ponto de vista à entrevistadora:

"Sim, os grandes amores sempre se acabam. Todos nós precisamos de um grande amor finito, interrompido, para continuarmos a crer na infinitude do amor. (...)

Lembrei-me então de um conto de Graham Greene, que li há muito tempo, chamado "Visita a Moritz". Um sujeito muito rico tem uma doença crônica aparentemente incurável. Depois de percorrer os grandes centros médicos do mundo, informam-lhe que vive em Moritz um obscuro doutor em cujo histórico clínico registram-se casos de cura da rara doença. O homem viaja a Moritz e hospeda-se num hotel. No dia seguinte, pela manhã, sai a caminhar pela pequena cidade e logo localiza o endereço do médico. Uma rua aprazível, um chalé com um belo pé de tília no jardim. Aquela atmosfera acolhedora anima-lhe a visita. Mas ele não chama pelo doutor. Não entra. Limita-se a contemplar a casa, a modesta placa de madeira que a brisa matinal balança. Retorna ao hotel e na mesma noite inicia a viagem de volta.

Minha entrevistadora sorri. A fita acabou finalmente. Desnecessário explicar-lhe o óbvio. Conservar viva uma esperança, mesmo que para isso tenhamos de renunciar ao objeto de nossa busca."

O amor é um lugar estranho.

Temos que aceitar (e suportar) que, sobretudo entre apaixonados, a comunicação é basicamente equívoco, mal-entendido, erro de interpretação, e que tudo o que os amantes podem inventar juntos sempre inventarão sobre as ruínas da comunicação, não sobre seus êxitos.

Alan Pauls, escritor argentino, em entrevista sobre o seu mais novo e badaladíssimo livro "O Passado".

25 de junho de 2007

Deixemos as mulheres apenas bonitas para os homens sem imaginação.

Marcel Proust

22 de junho de 2007

O abandono do blog querido.

É que a coisa tá preta, minha gente. Preta mêischmo. A tendinite no pulso já denunciava o stress percorrendo o corpo da pessoa, além da mente que já não descansa, né, não tem jeito. Agora os efeitos do esgotamento estão se generalizando, ao ponto da pessoa só estar no aguardo de pifar, mas pifar assim miseravelmente, numa coisa muito óbvia e básica do desenvolvimento das atividades profissionais.

E a academia, meu deus!!!

E os exercícios físicos, sem os quais a pessoa não conseguia viver sem por muito tempo?

O horror do sedentarismo, a ausência de vontade para toda e qualquer atividade saudável e geradora de energia.

Vejam, reparem só, o início, o prenúncio do que está por vir:

Fernanda diz:
bonjour mary
Fernanda diz:
viu o email daquele cretino?
Mariana diz:
oi fer
Mariana diz:
acabei de ler
Mariana diz:
tô bufando
Fernanda diz:
é uma piada né
Mariana diz:
vou responder o email desse pulha


(...)

Mariana diz:
fer, acabei de mandar email pra ele
Mariana diz:
já chegou aí pra vc?
Fernanda diz:
chegou
Fernanda diz:
ótimo mari
Fernanda diz:
apesar de q eu acho q não vai surtir efeito nenhum
Mariana diz:
sim,
Fernanda diz:
esse idiota vai continuar tirando o corpo fora
Mariana diz:
mas que falta de tudo viu
Fernanda diz:
e mandando a gente se virar
Mariana diz:
mas vê se tem cabimento a gente simplesmente se atravessar
Mariana diz:
o professor não sabe nem de que buraco a gente saiu

Fernanda diz:
sim, bem isso
Fernanda diz:
qdo eu acho q eles já fizeram de tudo
Fernanda diz:
me vem esse pateta lavando as mãos
Mariana diz:
fer, eu tô escrevendo um email aqui pro blublublu
Mariana diz:
queimando um pouco a minha cara
Mariana diz:
um pouco mais, melhor dizendo
Fernanda diz:
aproveita pra queimar a cara da bliblibli
Fernanda diz:
diz q pedimos pro xxxx q intermediasse o contado
Fernanda diz:
mas q não obtivemos qualquer resposta
Fernanda diz:
e q estamos abandonadas a propria sorte

(...)

Mariana diz:
viu a resposta do cara?
Mariana diz:
conseguiu falar e não dizer nada
Mariana diz:
perguntei objetivamente como devemos proceder
Mariana diz:
vc entendeu o que é pra gente fazer agora?
Fernanda diz:
eu acho q ele só deve ter encaminhado o nosso email pro cara agora
Fernanda diz:
e mandou a gente se virar
Fernanda diz:
simples assim
Fernanda diz:
note q ele nunca está errado e sempre faz o q tem q ser feito
Mariana diz:
síndrome de bom moço


(...)

Mariana diz:
viu essa?
Mariana diz:
mandou agora o email pro blublublu
Mariana diz:
te contar viu
Fernanda diz:
eu disse, só depois da tua cutucada é q ele se coçou
Fernanda diz:
ahhhhhhhhhhh
Fernanda diz:
q vontade de avançar nesse mané
Mariana diz:
ave
Mariana diz:
viu isso?
Mariana diz:
agora ele desatou a escrever pros professores
Fernanda diz:
pois é



(...)

(...)

Mariana diz:
fer
Mariana diz:
fer fer fer
Mariana diz:
meu deus
Mariana diz:
diga que eu não fiz isso
Mariana diz:
diga que eu não fis
Mariana diz:
fizzzzzzzzz
Mariana diz:
isso é hora pra erros de portugues
Fernanda diz:
hã?
Fernanda diz:
do q vc tá falando?
Mariana diz:
fer de deus
Mariana diz:
eu respondi o teu email para o xxxxx menina
Mariana diz:
aquele em que vc disse que ele não teve a decência de enviar o email pro professor
Fernanda diz:
como assim?
Mariana diz:
eu não acredito
Mariana diz:
eu preciso de férias realmente
Fernanda diz:
meu deeeeeeeeeeeuuuuuussssssss
Fernanda diz:
eu te mato
Mariana diz:
olha o que eu tô fazendo
Fernanda diz:
orra, orra, orra
Mariana diz:
duas vezes ainda
Mariana diz:
não fer
Mariana diz:
mil perdões
Mariana diz:
eu quero morrer
Fernanda diz:
eu tacando a boca no cara
Mariana diz:
jesus maria josé
Mariana diz:
me desculpe
Fernanda diz:
bom, eu falei a verdade né
Fernanda diz:
ele não tinha passado email nenhum até então
Mariana diz:
sim
Mariana diz:
brincadeira isso
Mariana diz:
eu sou um perigo
Fernanda diz:
é mesmo!
Mariana diz:
eu represento perigo para os demais seres humanos
Mariana diz:
eu tenho que tirar uma licença
Mariana diz:
licença saúde
Mariana diz:
não, ...ele vai achar que eu realmente quis passar o email com o teu comentário porque foram duas vezes
Fernanda diz:
duas???????????
Fernanda diz:
ai deuso
Fernanda diz:
ai deuso
Fernanda diz:
mariana do céu
Fernanda diz:
tu me mata
Mariana diz:
eu preciso ser afastada, tô falando
Mariana diz:
eu mandei um último email agradecendo a atenção, depois que ele mandou a enxurrada de emails dele
Mariana diz:
bom, ao menos, (eu sei que não melhora muito), mas ao menos, os últimos emails foram educados
Mariana diz:
eu vou me desculpar até o fim da minha vida, viu fer
Mariana diz:
e vou ajoelhar no milho hoje
Fernanda diz:
hahahahahahaha
Fernanda diz:
eu até fui polida com ele
Fernanda diz:
pelo menos não chamei de pateta
Mariana diz:
sim, graças
Mariana diz:
graças ao bom Deus
Mariana diz:
e do jeito que ele é confuso, não vai saber quem escreveu pra quem
Mariana diz:
pode ter sido eu mesma

11 de junho de 2007

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".

Caio Fernando Abreu

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

8 de junho de 2007

"O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."

Do Gabriel, o Garcia Márquez, em "Memórias de minhas putas tristes".

6 de junho de 2007

Diálogo construtivo...

Rafael diz:
e ae
Rafael diz:
vamos?
Mariana diz:
vamos
Mariana diz:
depois de mais de uma semana
Rafael diz:
deixei de ir no meu pai pra falar com vcs
Mariana diz:
muito bem!
Rafael diz:
pq estou com muita, mas muita saudades mesmo
Mariana diz:
5 estrelinhas para ti
Mariana diz:
hahahahahahahaha
Mariana diz:
siiim, mas faz mais de uma semaaana menino
Mariana diz:
trouxe teu cachecol todos os dias
Mariana diz:
e não pude entregar
Rafael diz:
hahahahah
Rafael diz:
eu pensei que nunca mais veria esse cachecol
Rafael diz:
ja tava dando ele como extraviado
Mariana diz:
nossa
Rafael diz:
hahahahaha
Mariana diz:
estando comigo jamais dê nada por perdido, mon ami
Rafael diz:
ainda bem, ainda bem
Mariana diz:
eu cuido muito bem do que não é meu e devolvo nas mesmas condições
Mariana diz:
don't worry!
Mariana diz:
be happy!
Mariana diz:
:D
Rafael diz:
I believe in you
Rafael diz:
e o feriadovisk?
Mariana diz:
trabalharei, naturalmente
Mariana diz:
e amanhã quero dormir 24 horas seguidas
Mariana diz:
e quero fazer compras no sábado
Mariana diz:
e quero férias de 30 dias agora mesmo
Rafael diz:
nossa
Rafael diz:
eu pensei em sair hj
Rafael diz:
tomar todas
Rafael diz:
amanhã, tomar todas
Rafael diz:
sexta, trabalharei tb
Rafael diz:
mas quero ver se vou no mercado municipal comprar uns vinhotes
Rafael diz:
sexta a noite, beber todas
Rafael diz:
e pegar umas muiés
Rafael diz:
sabado, idem
Mariana diz:
hahahahahahahaha
Rafael diz:
hahahahahah
Mariana diz:
uau hein
Mariana diz:
que super programação
Mariana diz:
e eu, na minha infinita ingenuidade, só queria dormir e fazer compras
Rafael diz:
pois é
Rafael diz:
mari, estou apaixonado
Mariana diz:
enquanto podia estar aí bebendo todas e pegando uns hômi
Mariana diz:
ai
Rafael diz:
essa miss brasil que ficou em vice no miss universo é demais
Mariana diz:
hahahahahahaha
Mariana diz:
é mesmo
Rafael diz:
to vendo umas fotos dela no jornal agora
Mariana diz:
excrusive, comprado aquele concursinho de meia tigela hein
Rafael diz:
diz que os seios dela sao naturais
Mariana diz:
nem a japa acreditou que ela tinha ganhado da brasileira
Rafael diz:
nao, as fotos da japa aqui mostam o como ela é feia
Rafael diz:
ela era a pior de todas
Rafael diz:
até a coreana era mais gata que ela
Mariana diz:
é, mas decerto que eles viram a beleza interioRR
Mariana diz:
e a inteligência dela
Mariana diz:
donald trump considera essas coisas tbém, ouvi falar
Rafael diz:
pelo amor de deus
Rafael diz:
miss= beleza
Rafael diz:
missa (não necessariamente) = inteligencia
Mariana diz:
pois é
Mariana diz:

faz sentido mesmo

Fátima Guedes, fofurinha


A última vez que ela veio para cá, salvo engano, foi em 2002. Show no Paiol com Zé Luiz Mazzioti.

Foi a primeira e única vez que eu fui a um show sozinha e tive uma experiência muito feliz. Obviamente que o tipo de show e o tipo de teatro ajudaram em tudo, já que a atmosfera era naturalmente introspectiva e intimista.

Lembro que na minha cadeira e nas cadeiras em volta estavam umas meninas que não haviam conseguido lugar juntas e eu disse que elas podiam ficar com a minha cadeira, sem problema, que eu trocava de lugar, ao que elas me perguntaram muito solidárias: mas vc tá soziiinhaa??

No fim, foi melhor trocar de lugar, porque aí fiquei no espaço mais alto e mais escuro do Paiol, o que (quero crer) evitou um pouco do vexame, pois eu chorava soluçado durante todo o show.

Aliás, 2002 foi o ano dos shows emocionantes e de chorar soluçado. E 2007 tem sido o ano do retorno destes artistas, com shows que infelizmente não puderam superar o impacto que os anteriores tiveram para mim. Mas é que né, ...nem poderiam.

A intensidade das coisas vividas pela primeira vez é particular e única, apenas para dizer o óbvio ululante. O tempo depois se encarrega de acrescentar a dose de nostalgia e temos cá mais um momento em nossas vidas idealizado pela saudade. Pela saudade e pela inocência. De alguma coisa tinham que servir as primeiras experiências e a inocência, afinal.

Mãs o show deste fim de semana, mais uma vez, foi emocionante, com composições do Tom de antes da bossa nova, todas músicas desconhecidas do grande público, portanto. Meus irmãos fariam um à parte aqui para dizer que sou esquisita, já que não gosto de nada do que todo mundo gosta. “Porque todo o mundo gosta” e “ninguém nunca ouviu falar dessas coisas que vc gosta”. São as frases-mãe de todo o diálogo que travo com eles sobre gostos pessoais. Eles odeiam todos os meus cds e os livros e tudo o mais do que eu goste. Diria que é um indício do meu bom gosto isso. Onde já se viu “maioria” ser pressuposto de qualidade. A maioria escolheu o Lula, não esqueçamos - só para usar o exemplo mais chocante.

Mas tá, depois do show, imbuídas de enorme boa-vontade e abertura para o mundo, fomos eu e Ferdi Maria encarar uma boate alternativa, com gente esquisita. Aí percebo que sou convencional por demais, assim, externamente, e não orno em lugares com gente esquisita, embora o lugar, a decoração, a música e mesmo o figurino do pessoal me agrade muitíssimo. Ó, o conflito lá, arrojo versus blábláblá, sempre companheiro.

É que não resisto. Pra ter uma idéia, tem até uma passagem secreta no banheiro masculino - que é uma atração por si só, já que o vaso fica um degrau acima, tipo altar, e o teto rente à cabeça, a la o meio-andar de Charlie Kaufman. Dayana Kelly mostra pra vcs - a passagem secreta, bem entendido, que fotografar o vaso não passou pela nossa cabeça na hora:


E eis o outro lado:


Que era o bar detrás, onde havia um caminho de pedras, uma bananeira de canto cheia de luzinhas e Sin City refletido no paredão.

Só aligriiia.

28 de maio de 2007

“Quem tem tique não pode jogar”.

Tudo vai bem.

Até que, nesses atendimentos mis em escala industrial, a gente atende uma pessoa com tique.

Sendo que o tique da pessoa era levantar as sobrancelhas e arregalar os olhos assim, meio que umas cinco vezes sucessivas, à medida que ia se concentrando nas perguntas e explicações todas.

Uma beleza.

E, mais ainda, de ficar como que apontando com a cabeça para o seu lado esquerdo, e meu direito. E eu olhei né, porque realmente parecia que ele estava querendo me mostrar alguma coisa praqueles lados. E olhei mais de uma vez, porque a coisa é involuntária, tanto quanto os tiques todos.

Que situaçã, pessoar, que situaçã.

Mas fui forte.

Até porque os atendimentos são sozinhos né, não há ninguém mais na sala, just the two of us, ninguém para dividir a atenção. O que, neste caso foi até bom. Porque né, as reações em massa sobre a mesma situação podem ser desastrosas.

Ainda bem também que o procedimento todo já faz parte de toda uma vida da pessoa, que a gente liga o piloto automático e vai. Sem pensar no amanhã.

E só lembrando das reações em situaçãs análogas em que Merilú estava presente e houve estragos. ‘Jisuis, se Merilú estivesse aqui!’. Como da vez do Elétrica, num dos festivais de teatro da vida, da época do blog roseroxo, ocasião em que eu estava certa que nos iam expulsar do teatro, só estava esperando o momento, e ocasião em que se iniciaram minhas aulas sobre como tapar a boca durante um ataque de riso definitivamente não é a melhor opção, pelo efeito muito mais chamativo da explosão que ocorre quando não se agüenta de jeito nenhum e aquela coisa abafada que se mistura com a risada e tudo mais. E enfim.

Entre outras menos publicáveis.

E da juventude doirada de invernos na praia em que as cousas invariavelmente se descambavam para passar as noites jogando Detetive (não o de tabuleiro, o das cartas, sabem? que tem as vítimas, o assassino e a polícia? tem isso em todo canto será?), e os ‘castigos’ todos de virar alguma coisa alcoólica garganta abaixo, e as conseqüências adolescentes todas desta tão valiosa experiência pela casa das pessoas afora.

Mãs.

Sendo que quem fosse o ‘assassino’ da vez, matava suas vítimas o mais discretamente possível, piscando para elas. Foi aí que se descobriu que uma das pessoas na mesa tinha o tal tique. Esse de piscar. Mais do que o normal, eu digo, e em seqüências mais longas, digamos. Daí que a coisa foi impossível, que essa mesma pessoa ‘matava’ todo mundo sem nem sentir, inclusive o próprio assassino, o que foi deveras confuso, somado às cousas alcoólicas garganta abaixo. E foi aí que a antológica frase aí em riba surgiu, a do título, com o perdão da piadinha interna, é claro, a qual possivelmente nem seja assim tão super engraçada, mas por essas bandas, continua fazendo o maior sucesso.

Os caminhos da mente, né. Eu em Guaratuba nos anos noventa e o atendimento rolando. Numa coisa meio sem olhar direito pra pessoa, o constrangimento todo de um e outro e aquela coisa. Mas é o máximo de controle que se consegue, porque a gente tenta, mas sem abuso.

25 de maio de 2007

Humilhação: tropeçar na escada do trabalho e fazer um barulhão capaz de fazer as pessoas levantarem da cadeira pra vir perguntar se está tudo bem.

Humilhação suprema: seu chefe no alto da escada se agilizando pra te catar do chão.

E hj eu tô sem salto!!!!

23 de maio de 2007

Trabalhe com um barulho desses

Aqui ao lado do escritório tem uma escolinha com berçário.
Faz duas semanas que um bebê chora ininterruptamente o dia todo.
Descobrimos que é uma menininha de três meses que foi acostumada a ficar no colo o tempo todo e que agora passa o dia no berçário.
Como as professoras querem desabituá-la do colo, ela protesta se esgoelando o tempo inteiro, eu disse o tempo INTEIRO.

Concentração amiga, cadê você???

16 de maio de 2007

Tipo assim.

Estou viva, passo bem e tudo mais ou menos sob controle. Sei que as rugas de preocupação da multidão de fiéis leitores desfizeram-se neste momento, mãs.

E atendendo mais pessoas ao mesmo tempo do que eu mesma jamais imaginava que era possível para qualquer pessoa neste mundo afora. Logo eu, que sempre always e forever disse que se coisa houvesse, uma única, que um dia eu pudesse escolher para nunca mais fazer nesta nossa profissão da peste, seria, sem titubear, atender clientes. A ironia, ela sempre.

No entanto e porém, eis que esta experiência praticamente diária na região metropolitana de nossa capitar ecológica serviu ao menos para, de uma vez por todas – e se não fosse agora, não sei mais na vida quando diabos haveria de ser – se desenvolver toda uma paciência voluntária e não forçada em momento algum com as pessoas atendidas, tanto que a coisa deixou de ser um suplício, para ser um sofrimento mais leve um pouco. Um pouco, mas ainda assim. Nessas alturas, já é super.

O problema é o padrão das perguntas, todas iguais, por estarem todos nesta mesma situação jurídica, no caso. Sendo que por ‘todas’, eu quero dizer algumas centenas de. Para serem atendidas, uma a uma. Por moi. E por outro advogado que reveza comigo, mas isso não vem ao caso. Porque eu eu eu eu. E o padrão das dúvidas, as mesmas sempre. E as minhas respostas, as mesmas sempre. Até as piadinhas. Que eu faço piadinhas, pessoa tão descolada que sou. Sabe aqueles professores de cursinho que todo santo ano fazem as mesmas brincadeiras sobre os mesmos assuntos, para alunos que são diferentes? Então. Finalmente entendo o drama.

Mãs, tudo muito construtivo, não fossem os prazos se acumulando na mesa que fica lááá no escritório, esquecido pelas tardes na região metropolitana. Mas isso é outro detalhe não muito agradável que fica pra depois.

Sei que as forças e energias, como disse eu aí num comentário tardio aos posts todos que foram acontecendo so far away from me, vão-se todas consumidas pela ansiedade, o mal maior. Não sei se do século, mas meu eu garanto. O diacho do frio na barriga e do organismo todo em alerta alimentam-se das energias da pessoa. Bem podiam alimentar-se da gordura toda da pessoa, mas nãããão. Estas estão aí, firmes e fortes. Aliás, nada firmes, mas sempre fortes e crescentes.

Tudo assim muito muito vago, a la noche, só pra dizer que sim, I’ll survive e um belo dia eu voltarei! Fé, muita fé.

E o cliente, então, que te dá carona até a esquina do escritório e se despede dizendo: "não vá se perder hein!"

Ps: Percebam que estou respeitando a ordem cronológica dos acontecimentos. E ainda faltam 2 horas e meia até o fim do expediente...

E o que pretende o velho que se aproxima do amigo pra cochichar alguma coisa em pleno elevador, quando no elevador estão somente eles e eu?

+_+

Güente.

14 de maio de 2007

POR UM ACASO

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta, como seu coração dispara em mim.

WISLAWA SZYMBORSKA

9 de maio de 2007

Meu tempo é quando – parte II

Esse post tem mais ou menos um ano de atraso, porque na época, não achei que havia algo do que falar que não fosse causar forte indignação. Para a minha pessoa no caso. E para a psicologia enquanto estudo do comportamento.

Ocorre que à algumas coisas falta tanto critério e à algumas pessoas falta tanta percepção, que só nos resta rir da ironia da cousa toda.

“Inventário de Atitude do Trabalho” ou, como apelidado pelo Rafa, “Inventário mother fucker psicográfico”.

Consiste numas 48645 perguntas sobre comportamento profissional, a fim de traçar o perfil profissional da pessoa. Sim, porque hoje não se fala mais em 'talentos para determinadas áreas do conhecimento', mas sim em 'perfis para determinadas funções'. Aliás, não se fala mais em "talentos", estes foram substituídos pelas palavrinhas nada simpáticas “habilidades vendáveis”.

Pois sim. Para todas as perguntas deve ser marcada uma resposta, obrigatoriamente, ainda que nenhuma das respostas corresponda àquela que seria dada por vc. Não bastasse, as perguntas se repetem inúmeras vezes pelo teste afora, com respostas diferentes e, por vezes, opostas àquelas outras da pergunta anterior. Mais ou menos assim: numa pergunta vc assinala, contrariada, a alternativa “a”, porque na verdade ela não teria resposta pra vc, mas vc tem que responder. Mais à frente, surge a mesma pergunta, com outras respostas, opostas àquela da anterior, sendo que deve ser assinalada a que mais tem a ver com vc; em não havendo, qualquer uma, que, por isso, vai ser absolutamente oposta a alternativa “a” antes assinalada, que já tinha muito pouco a ver com vc. E assim vai.

Aí que chegou o dia da “orientação individual”, que seria a análise do resultado deste teste cujo resultado alimenta um programa que forma um gráfico. Este é o gráfico dos seus pontos fortes e fracos. São analisadas várias características divididas em grupos de “administrativas”, "interpessoais’ e “intrapessoais”.

Daí que o meu gráfico é de uma pessoa problemática, por assim dizer.

Segundo a psicóloga que aplicou o teste e depois me entregou o resultado, devidamente comentado, nas palavras da própria: existe uma "porra-lôca" dentro de mim querendo se liberar e sendo impedida pela minha ‘dificuldade em tomar decisões’, esta, por sua vez, decorrente do ‘medo da perda’.

E mais um bocado de outras coisas na mesma linha, só que mais pra baixo.

Para finalizar, sofro de um conflito existencial entre o meu ímpeto pelo arrojo e o meu conservadorismo. Trocando em miúdos, preciso de ajuda profissional. Sabe cumé, pra resolver esse "dilema interno" que está me impedindo de escolher entre um e outro.

No entanto, analisando superficialmente o meu gráfico eu mesma pude perceber que as colunas vistas assim, de maneira global, e, considerando os grupos de características, denunciavam uma série de contrariedades. Qualquer um poderia por ex. olhar o gráfico e, sem titubear, encontrar ali um conflito entre a minha vontade de ousar ou de abraçar o certo ao invés do duvidoso. Qualquer um, menos, talvez, a psicóloga.

Certo que há este conflito. Sempre houve e sempre haverá, e, até onde entendo, graças ao Senhor Jesus, que não quero mesmo optar por uma das coisas e com esta permanecer para todo o sempre. No entanto, isto não significa em absoluto todas as outras conclusões que o gráfico dela tirou por si só, consciente e sensível que não foi à pessoa que se sentou à frente dela e que disse coisas que deveriam ter sido avaliadas, quando menos, em conjunto.

Numa dessas que as pessoas menos esclarecidas entram em desajuste com as demais e caem no dilema aquele do ‘ó, como sou incompreendido’, como se houvesse compreensão no mundo e isso não fosse um falso problema, seguido de uma falsa crise.

Contudo, hoje relendo o texto e lembrando do quanto fiquei atônita e considerando o tempo que passou e as novas idéias que surgiram, devo dizer que o conflito persiste e todo o resto deve ser jogado fora, exatamente como há um ano atrás, com a diferença de que agora convivo melhor com a contradição, a minha e a dos outros.

Na minha ânsia por coerência e congruência, perdi todas as vezes em que tentei compreender o que não se compreende e justificar o que não se justifica, e ainda assim teimei nesta tarefa ingrata. Ainda teimo, na verdade, mas dou a isso menos importância, o que suavizou deveras uma porção de coisas.

E, claro, prossigo naquela do arrojo x conservadorismo, passeando pelos dois lados e tentando sair o menos chamuscada possível.

4 de maio de 2007

"Ah, meu deus, e eu ainda ensinei ela a rebater...."

Juju pegou o buquê. Ou parte dele, mas ainda assim veio certeira a florzinha vermelha diretamente para as mãos de Juju. Thi, um tanto preocupado depois de ouvir a massa gritando o seu nome, solta-me esta pérola de ainda a ter ensinado a rebater...

Nesse momento, já alterada das idéias, não pude evitar enxergar Juju tomando impulso entre as demais e rebatendo a flor que vinha em sua direção. Fato incrível este que, apesar de peculiar, seria bastante possível, já que Juju em tempos remotos, foi campeã de peteca no colégio, juntamente com Kerol, sua dupla. E a peteca que sempre me pareceu um esporte pouco útil (perdoem-me meninas) vem surpreender desta maneira mais de década depois.

Esbaldei-me de champanha e saí da festa, aliás, saímos todos, somente depois de ver os “hômi” pendurados nos lustres pra retirar as flores da decoração. Percebi que era o fim também depois do laquê me boicotar e meus cabelos começarem a desabar, dando uma aparência um tanto decadente ao visual. Afora os fios puxados do vestido graças ao contato com a minha pulseira nova que, contrariamente ao estrago, tinha o objetivo de ser a peça mais brilhante da produção.

Graças que houve este feriado de terça pra pessoa ao menos tentar se recuperar do baque, que os anos de má postura começam a pesar a esta altura da vida e minha coluna num güenta mais 10 horas seguidas de salto 15 fino.

Tem sempre aquele momento né, introspectivo, que ocorre mesmo depois de todo o álcool, em que a pessoa pára concentrada pra olhar em volta e gravar a cena e constatar com emoção que todos se encontram na mesma situação, exultantes de aligriiia. Prova disso foram as declarações de amizade e amoR que todos sentimos um pelo outro all together now que nem sempre levaram em conta as pessoas desconhecidas que eram abraçadas em conjunto.

Eu e Day, transgressoras que somos, atravessamos a área restrita ao casório e subimos as escadas do Castelo pra dar uma olhadinha nos cômodos de cima. Uma coisa realmente.

Ninguém caiu na pista, que me lembre. Vi Marcinho querido apenas se desequilibrar um minuto e quase cair pra trás, mas foi tão linda a recuperação, com a pessoa emendando um passinho em seguida e saltitando no ritmo da música até estar de pé de novo, que não se pode considerar isso uma gafe, de reito nium.

Foi o primeiro casamento da turma. Ao menos o primeiro comemorado tradicionalmente com igreja e festa. Sei não se os nouvos aproveitaram na mesma medida, mas os convidados posso garantir que sim, diante do desbunde de cores e brilhos e dos reencontros e da confraternização geral de turmas, o que tornou tudo véri véri funny.

* up date: mas veja só que orguuuulho que só agora me apercebo desta maravilha de dois dos citados no texto poderem ser linkados para os seus respectivos blogues!! Ó a evolução dos tempos!

3 de maio de 2007

Cortázar, Julio

Entre a Maga e mim cresce um canavial de palavras, estamos separados só por algumas horas e alguns quarteirões e já a minha pena se chama pena, meu amor se chama amor...Irei sentindo cada vez menos e recordando cada vez mais, mas o que é a recordação, afinal, senão o idioma dos sentimentos, um dicionário de rostos e dias e perfumes que voltam como os verbos e os adjetivos no discurso, adiantando-se disfarçados, à coisa em si, ao presente puro, entristecendo-nos ou lecionando-nos vicariamente até que o próprio ser se torna vicário, o rosto que olha para trás abre muito os olhos, o verdadeiro rosto se mancha pouco a pouco como nas velhas fotografias e Jano, de repente, é igual a qualquer um de nós. Vou dizendo isso tudo a Crevel, mas é com a Maga que estou falando, agora que estamos tão longe um do outro. E não lhe falo com as palavras que só serviriam para que não nos entendêssemos, agora que já é tarde começo a escolher outras, as dela, as envoltas naquilo que ela compreende e não tem nome, auras e tensões que crispam o ar entre dois corpos ou enchem de ouro em pó um quarto ou um verso. Mas não vivemos assim o tempo todo, lacerando-nos docemente? Não, não vivemos assim, ela quis, porém uma vez mais voltei a instalar a falsa ordem que estimula o caos, a fingir que me entregava a uma vida profunda da qual só tocava a terrível água com a ponta do pé. Existem rios metafísicos, ela nada por eles como aquela andorinha está nadando pelo ar, girando alucinada, em torno do campanário, deixando-se cair para melhor levantar com o impulso. Eu descrevo e defino e desejo esse rios; ela nada por eles. Eu os procuro, os encontro, olho-os da ponte, e ela nada por eles. E, sem o saber, igualzinha à andorinha. Não precisa saber, como eu; pode viver na desordem sem que nenhuma consciência de ordem a retenha. Essa desordem é a sua ordem misteriosa, essa boêmia do corpo e da alma que lhe abre de par em par as verdadeiras portas. A sua vida não é desordem, a não ser para mim, enterrado em preconceitos que eu desprezo e respeito ao mesmo tempo. Eu, condenado a ser absolvido irremediavelmente pela Maga, que me julga sem saber. Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver algum dia da mesma forma como vêem os teus olhos.